quinta-feira, 30 de julho de 2009

Sem inspiração

Por hora.

domingo, 26 de julho de 2009

Brisa

Estava sentada na rede, fazia sol e a leve brisa marítima lhe fazia viajar em seus pensamentos. Queria esquecer, mas será que ainda poderia? Estava em um divisor de águas entre sua vida nova e a antiga. Sentia-se como uma criança assustada, sempre estivera com tudo sob controle e agora, cada vez mais, parecia que nenhum dos acontecimentos dependia dela. Todos se movimentavam como atores de uma cena, e ela se sentia como uma mera figurante, uma figurante de sua própria vida. Será que se permitiria novamente gostar de alguém? Não fazia muito tempo...quer dizer...já fazia algum tempo, sim, mas...Talvez ainda não estivesse pronta para um novo relacionamento... Se sentia imatura ainda. Talvez não tivesse aprendido tudo o que deveria com o caso anterior...Já não queria mais pensar nisso, já não queria pensar em mais nada, não queria sentir mais nada. Mas, era tarde demais, já estava se tornando inevitável para ela controlar o que estava sentindo. Cansou de lutar contra o destino, deixou ser tragada para as profundezas do desconhecido.

As mulheres de Fernando, parte 7 - A ruiva III, Ana.

- Pois é...E a fotografia? Me fala mais! - Cortou ele, para mudarem de assunto.

- Ah...- disse como se lembrasse de algo- São casamentos, quinze anos, batizados, festas em geral, books...coisas do tipo. Mas, o que eu mais gosto é de viajar e tirar fotos do mundo.

- Fotos do mundo? Quais foram as últimas?

- As últimas foi da minha estada em Cingapura! Eu fiquei uma semana, mas já pude ter uma noção de como é lá...As fotos ficaram ótimas!

- É?

- Claro, depois não quer ir lá em casa pra eu poder te mostrar?

- Claro!
Conversaram mais algumas banalidades, Fernando disfarçava sua ansiosidade de chegar ao apartamento de Ana. Ansiosidade que não era apenas para ver as fotos que a moça tirara de Cingapura. Talvez tirassem outras coisas além de fotos aquela noite.

Uma noite, um bar, três amigas - II

Bruna, que era a mais irreverente de todas, pediu uma cerveja, Sofia estava dirigindo e Mariana não bebia. Começaram contando de suas semanas, trivialidades, amores...Cada uma havia uma particularidade, uma história, um caso, mas todas convergiam para um mesmo ponto. Nenhuma estava satisfeita. Cada uma de sua maneira, mas nenhuma estava. Bruna ainda não acreditava que um homem havia terminado algo que sequer havia começado. Ainda que ela não fosse de se apaixonar, estava surpresa. Surpresa consigo mesma por gostar de alguém que ela mal conhecia e com a atitude do estranho. Ele parecia diferente, não tão imaturo quanto os que ela estava acostumada, mas a verdade era que ele era o pior de todos. Mariana estava com seu dilema ainda a respeito de seu namorado. Ela gostava dele, mas achava que não o suficiente para amá-lo. Somado a isso, o grande amor da sua vida estava voltando para o país. Ela sabia que ele não era a mesma pessoa pela qual ela havia se apaixonado, mas não conseguia se libertar daquela imagem do passado. Ele ainda a perturbava. Ela não conseguia se envolver com outros rapazes. Estava namorando por comodismo, mas não estava segura se gostava ou não dele, essa era a pior parte. Ela parecia gostar do seu namorado, mas não gostava. A falsa impressão lhe fez cometer diversos erros. Ela levava aquela situação o quanto ainda podia, mas não sabia até quando. Sofia estava perplexa por ter sido esnobada por aquele rapaz que outrora era apaixonado por ela. Sofia gostava de ser bajulada, como uma boa leonina, e nunca gostava de "perder". Não havia "não" em seu dicionário, era competitiva e sabia o que queria. Queria ele. Talvez, nem ela mesma gostasse tanto do rapaz, mas o gosto de vencer uma possível concorrente já era o suficiente para ela. Mas, ainda, as três estavam experimentando uma sensação de rejeição por quem elas gostavam. Seria justo? Não sabemos se seria justo, mas a verdade era que elas tinham as amigas e que poderiam confiar umas nas outras. Ao menos esperavam que fosse assim.

As aparências enganam

Maria Eduarda e Miguel eram um casal normal, faziam cinco anos de casados em poucos dias. As pedras de granizo batiam violentas no vidro do carro no caminho de volta.Voltavam de um jantar dos empresários do lugar onde Miguel trabalhava, chovia torrencialmente. Já no elevador do seu prédio, seguiam para o nono andar. Eram quase duas horas da manhã. Próximo ao quinto andar o elevador pára e as luzes se apagam.
- Miguel?
- Sim?
- E agora?
- Agora que nós temos que esperar a porcaria da luz voltar para conseguirmos chegar no nosso andar, ou tu achas que alguém vai nos escutar, ou, ao menos, notar que a luz acabou e que, possivelmente, alguém poderia estar no elevador?
- Tá, tá...- respondeu como estivesse se desculpando pela pergunta anterior.
Silêncio...
- Miguel?
- Que foi?! - disse num tom quase impaciente.
- Eu notei que tu andas estranho ultimamente, tá tendo um caso?
Nesse momento ele gelou, como será que ela havia descobrido? Ele não havia feito nada diferente da rotina nos últimos tempos. Nos últimos tempos. A questão era que o caso já não era tão novo, como ela poderia ter descoberto?! Mas ele não daria o braço a torcer, não, ele não podia.
- Não! Por Deus, de onde tu tirou essa idéia?
- Nada, não...
Ela já sabia há alguns meses. Meses? Talvez mais, mas não tinha motivos para perquerir o marido, afinal, ela também tinha seus affairs também. Entretanto, ela havia resolvido colocar um basta naquela situação. Eram duas pessoas adultas, casados, já não havia razão de mentiras. De ambos.
- Eu preciso te contar uma coisa.- falou ela, interrompendo novamente o silêncio que se formara novamente.
- Hum...
- Eu tô tendo um caso também.- sem alterar a voz e cortando a escuridão.
- Como assim "também"? Já te disse que não tenho caso nenhum! Com quem?! Como?! Porquê?! Eu sempre fiz tudo que tu quis! - Falou já alterando a voz com um misto de raiva e incredulidade.
- Miguel, não mente mais, eu sei de tudo. E tu não reparou a forma como tu tens me tratado?! Sempre agressivo, cansado, irritado, não me dá atenção, me deixa sozinha...Uma mulher também tem suas necessidades. Eu precisava me sentir bem, bonita, desejada, sexy, coisas que tu tem deixado muito a desejar. Certamente tu tem te dedicado à Julia tanto, que mal pode suprir o que tu tinhas em casa. Pra mim já chega. Eu quero o divórcio, não tá dando.
- Duda...- falou tentando agarrar-se a alguma réstia de seu casamento- Por quê?
- Amanhã a gente conversa melhor.

domingo, 19 de julho de 2009

As mulheres de Fernando, parte 6 - A ruiva II, Ana.

- Quanto tempo, hein, Fernando? - Disse a moça puxando a cadeira.
As duas amigas da ruiva se sentiram constrangidas de sentarem junto com eles, certamente elas estavam procurando outro tipo de companhia para aquela noite. Elas passaram mais algumas mesas e sentaram em um canto do bar, voltadas para a porta e para eles. Fernando também não fazia questão de que elas ficassem na mesma mesa, por isso nem se manifestou.
- Pois é...Quando que foi a última vez que nos vimos?- Blefou ele, tentando descobrir de onde conhecia a misteriosa, e bonita, mulher que o abordara.
- Acho que foi na festa da Marcinha, não lembra?
Ponto! Conseguira arrancar dela alguma informação que a vinculasse a algum conhecido, no caso, uma conhecida. Marcinha era amiga de sua ex-namorada, Rita, agora precisava saber se ela o conhecera com sua ex. Talvez a informação do término do namoro desperte alguma comoção por parte dela.
- É verdade! Nossa isso faz...
- Quase cinco anos!
Mais um ponto! Ele a conhecera, mas não havia tido nenhum envolvimento com aquela mulher, ainda. Ela estava ali, sentada na frente dele, ela que havia tomado a iniciativa, alguma coisa ela queria...
- Desculpa, nem ofereci, uma cerveja? - falou, levantando a garrafa.
- Sim, por favor.
- O que tem feito da vida? Desculpa, mas não me lembro teu nome...
- Ana! Ah...Eu tenho trabalhado só...Me formei em publicidade, mas tenho trabalhado com fotografia...e tu? O que tem feito? E a namorada, a...
- Rita! - falou interrompento a moça.
- Isso, a Rita! Vocês continuam juntos?
Ah! Ele só estava esperando essa pergunta fatídica, era hora do show.
- Pois é...Nós terminamos...Não deu muito certo...Já faz algum tempo...
- Ah...- falou não muito incomodada com a informação.

Xadrez

Caminhava pela rua sentindo o vento fresco no rosto. Não estava frio, mas uma temperatura agradável, parecia mais primavera ou outono, não inveno. Ignorava tudo, ignorava todos. De fato, não havia outras pessoas na rua para que ela pudesse ignorar, ainda que a noite não estivesse tão fria. Gostava de caminhar, parecia que as idéias se organizavam em sua mente. Naquele momento, nenhuma idéia ocupava a sua mente para poder ser organizada, caminhava apenas. Ainda tinha tempo, faltavam quarenta e cinco minutos e sabia que conseguiria chegar em quinze, no máximo, portanto seguiu a direção oposta, daria uma volta maior, aproveitaria a noite. Fez um dia bonito, mas só quando a noite chegou que se animou a sair de casa, era fato que gostasse da noite. Parou em uma sinaleira, poderia ser qualquer outra, mas parou naquela, voltaria e faria o caminho tradicional. Atravessou a rua, olhou a placa e não acreditou. Era a rua. Suas pernas a levaram para um caminho mais curto e não um mais longo. Aquele truque de seu subconsciente lhe assustou um pouco, desceu a lomba e se questionava sobre o que estaria acontecendo, será que destino existe mesmo? Levara aquele fato para um âmbito mais amplo. Será que era para ser? Questionava-se, agora, sobre a sua própria vida e o que havia acontecido nos últimos meses. Será que ela controlaria algo, ou seria apenas mais uma peça no xadrez da vida? Que os jogadores façam seu próximo movimento, pensou.

sábado, 18 de julho de 2009

Madrugada, Whisky e Cigarros.

Estava na sacada, já não importava mais o horário. Fumava e pensava na sua vida com um copo de Whisky com pedras de gelo boiando em uma das mãos. O clima de inverno produzia uma serração que fazia a noite ficar levemente branca. Apesar de estar frio, ele já não tinha mais os sentidos, o Whisky já o estava entorpecendo. Contava com pouco mais de sessenta anos e estava pensando o que fizera durante sua vida. Será que todo o esforço valera a pena? Será que as pessoas que diziam amá-lo, realmente, o amavam? Seus filhos já estavam adultos, já não tinha preocupações. Tinha feito um bom trabalho como pai, mas será que a contrapartida era verdadeira? Não conseguia sentir o amor dos filhos, por mais que estes se fizessem presentes. Pensava sobre seu casamento. Casara muito jovem, com a sua primeira namorada. Ele a amava, mesmo após tantos anos, mas não tinha certeza se sua esposa ainda o amava como outrora. Não estava questionando a fidelidade da esposa, nem seu respeito, mas sim a paixão. Já não sentia a mesma paixão que ela parecia exalar pelos poros há alguns anos antes. É bem verdade que já haviam passado por muitas coisas juntos, o que serviu para fortalecerem mais sua relação, embora companheirismo e respeito não sejam a mesma coisa que paixão. Ele sempre fora um bom marido, sempre tentou ajudar no que pôde, foi paciente, tolerante, tavez, até demais. Em poucos dias completaria mais um ano de vida. Será que valeria a pena mais um ano? Soltou uma baforada de fumaça.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Uma noite, um bar, três amigas - I

Era um bar irlandês, onde elas estavam sentadas em uma mesa. Era começo de inverno, fazia um leve frio, que, ainda assim, não impediu que as amigas se reencontrassem. Fazia pouco mais de um mês que as três não se reuniam, ainda que Bruna e Sofia fossem colegas de faculdade. Quem menos tinha contato com as amigas era Mariana. Bruna e Mariana conheceram-se na quarta série de um jeito um tanto quanto curioso, Bruna estava liderando uma excursão (por conta própria) para o matagal que havia na sede campestre da escola, quando conheceu Mariana, que foi a primeira voluntária a querer se aventurar a ir com ela. Bruna sempre fora uma menina irresponsável e por este motivo conheceu Sofia, para quem ela sempre pedia materiais emprestados na escola. É verdade que Bruna e Sofia sempre foram muito amigas e com o tempo foram se tornando mais amigas de Mariana. Hoje estavam ali. Possuíam muitas histórias em comum, se importavam umas com as outras, eram quase irmãs. Quase.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Andrófago.

Com os dedos gorduchos e ensebados de gordura, abriu a carta. A vela sobre a mesa iluminava palidamente o ambiente e dava um ar quase maquiavélico àquela figura. Quase, mas ele ainda era um gordo que todos sabem, ou pelo menos acham, ser uma pessoa pacífica e dócil. Será que estariam todos certos? O velho fogão a lenha esquentava àgua para a sopa e fazia a chaleira gritar. Leu rapidamente o que estava escrito. O envelope era endereçado a John Stephens, não era ele, obviamente, mas abriu mesmo assim. Não entendeu o significado da mensagem, nem fazia questão. Era um homem ignorante e bruto. Amassou o papel e o atirou no fogo, dentro da portinhola de metal. Foi até o quarto, abriu a porta e foi cortar a carne para colocar na panela. Um grito fez coro com a chaleira. Silêncio.

Anônima.

Estava ansiosa pela festa. Seria em um lugar muito diferente dos que ela estava acostumada. Não que não fosse a jantares chiques, mas aquele era especial. Já estivera lá antes, mas nunca como convidada de honra. Seu coração palpitava tanto que parecia querer sair do peito. Chegou. Pensou em pedir ao taxista para dar meia volta e lhe largar em casa novamente. Mas...Já estava pronta, arrumada e ali. Todos a esperavam, embora ninguém nunca tivesse a visto antes. Desceu. Dois seguranças guardavam a entrada do local. Ela entrou e subiu até o andar indicado. Não conseguia parar de se perguntar o que estaria fazendo ali. Pensara em desistir de ir diversas vezes, mas seu corpo não lhe obedecia e continuava a se arrumar e a se dirigir para o local. Na porta, a decoração já avisava o tipo de festa que era. As pessoas se posicionavam no salão. O burburinho das conversas se mesclava com o frenesi dos garçons. A música que tocava era clássica. Logo recebeu uma taça de champagne. Onde estariam as pessoas que ela conhecia? Até então só encontrara rostos desconhecidos. Ninguém a reconhecera até agora, entrara como uma perfeita estranha, afinal, era assim que se sentia. Uma perfeita estranha em meio a desconhecidos. Todos conheciam seu trabalho, mas nunca a viram. Ainda estava em tempo de voltar sem ser notada. Começou a caminhar em direção a saída, mas foi interpelada por sua amiga. Onde a Senhorita pensa que vai? Tarde demais.

Desabafo.

Preciso desabafar. Escrever tem me feito tão bem, mas ao mesmo tempo muito mal. É impressionante como alguém que se julgava tão sem talento algum, tão ignorante literariamente, tão, tão, tão...pudesse conseguir redigir algo. E o pior. Algo que as pessoas gostam. Ou, pelo menos, fingem muito bem. Eu continuo apostando na segunda opção, sempre fui de me subestimar e quando já estava tudo pronto eu não acreditava que tinha sido mesmo eu. Não que eu queira me vangloriar de algo, muito pelo contrário, sou muito crítica comigo mesma e por essa razão não acredito que eu possa ter escrito algo, ou, se escrevi, as pessoas gostem. Talvez esteja sendo muito dura comigo mesma. A verdade é que eu tenho me tornado escrava desses contos, ainda não sei se de uma maneira positiva ou não, mas prefiro deixar esses dilemas quase metafísicos para os meus personagens. É gratificante, tenho recebido vários elogios, claro, sempre dos meus amigos, o que lhes tiram um pouco do crédito, e várias sugestões de histórias e personagens. E o mais curioso, é surpreendente como quase tudo pode se tornar uma história. Eu sempre imaginei como os autores conseguiam pensar em algo...daquele tipo. O pior de tudo é que eu sempre penso em escrever nas horas mais inoportunas, agora são 8h38min, eu fui dormir perto das 2h, e acordei hoje às 6 e meia e tive que escrever os dois contos abaixo porque eles não queriam me deixar dormir, assim como as outras três histórias que têm me azucrinado nos últimos dias. O que mais têm me surpreendido disso tudo é que as histórias têm saído com uma naturalidade que me apavora, por exemplo, agora, eu não consigo parar de escrever. Bom, feito o desabafo, vou voltar a dormir.

As mulheres de Fernando, parte 5 - A ruiva I

Fernando olhou no relógio do celular, ainda eram dez horas da noite. Avistou uma ruiva, de longe, que caminhava em direção a ele, juntamente com mais duas amigas, talvez estivessem procurando algum bar. Era uma ruiva de pele bem branca, lhe lembrava as mulheres austríacas. Será que possuía alguma descendência? Aquela mulher se aproximava, seus olhares se cruzaram. Talvez pudesse responder sua própria pergunta aquela noite.
-Fernando? - Falou num tom de surpresa.
Por Deus! Ela sabia seu nome! Será que se conheciam? Ou será que estava escrito em algum lugar? Olhou para o seu peito para ver se havia esquecido algum crachá que o pudesse identificar. Nada. Ela lhe conhecia mesmo. Fernando saíra com diversas mulheres, muitas das quais não se lembrava sequer o nome. Na hora que olhou aquela ruiva não lhe ocorreu que a conhecesse. Agora, buscava desesperadamente numa espécie de agenda mental. Em vão, o jeito seria continuar fingindo que se lembrava perfeitamente dela.
-Oi! Tudo bem? - Respondeu ele, como se tivesse recordado quem ela era.
-Tudo ótimo! E contigo? Se lembra de mim?
Maldita mania das mulheres de encherem os homens, ou quem quer que seja, de perguntas. Na verdade pensava aquilo mais porque ela tocara num ponto crucial.
-Também. Claro que lembro! Procurando uma mesa? - Ele não poderia perder a oportunidade de terminar a noite acompanhado, ainda mais se tratando de uma mulher que não é comum, uma ruiva e, talvez, austríaca.
-Sim! Podemos? - Apontando para a mesa.
-Claro! - Retrucou.

Olfato.

Ela estava voltando para casa, transitava pelas ruas do centro como se fosse a primeira vez que seguia por aquelas ruas. Sentia pingos fracos de chuva, olhava os rostos das pessoas, rostos trabalhadores, que às vezes se misturava com um ou outro mendigo. Ela sentia-se mal cada vez que passava por uma pessoa suplicante, não gostava daquela condição das pessoas, ainda porque, principalmente, sabia que cada um tinha uma história, apesar de não saber todas. Tinha curiosidade de um dia parar e conversar com as pessoas na rua, curiosidade, não coragem. Passou por uma pessoa que fumava, aquele cheiro lhe remetia às festas que costumava frequentar, uma saudade lhe arrebatou. Seguia seu caminho, andando pelas ruas do Centro, passando por seus amados prédios antigos, os postes que já iluminavam a algumas horas, pessoas que caminhavam apressadas para retornarem a suas casas, lojas fechavam. Um aroma de churrasco entrava pelas narinas, parecia sexta-feira. Talvez tivesse aquela impressão porque sairia aquela noite, ou porque lembrava-se das festas, mas o certo é que gostava daquela sensação. Continuou seu percurso para casa como a maioria daquelas pessoas, se perdia em meio a elas. Uma porta se abriu e com ela uma baforada de incenso, sentiu-se envolvida por aquela atmosfera e transportada para seus oito anos, quando na casa de seu tio, na entrada do ano-novo, ele defumava a casa com o mesmo tipo de incenso. Tratou de cortar logo aquele pensamento, assim como todos os anteriores, prestava atenção apenas no trajeto. Prosseguiu a caminhada, a chuva começava a ficar forte.

terça-feira, 14 de julho de 2009

As mulheres de Fernando, parte 4 - Luana.

Luana...Ah Luana...Uma boca que parecia ter sido desenhada com o maior cuidado, com maior destreza. Um sorriso tão misterioso como o de mona lisa. Mas ele não se rendeu às suas tentações por sua bela boca. Não...ela possuía outros atributos que despertavam sua atração. Ela possuia um corpo que era de dar inveja a qualquer coelhinha da playboy. No auge dos seus vinte anos, aquela loira, linda, de cintura estreita, pernas bem torneadas, seios não tão fartos como os de Sílvia, mas que não deixavam a desejar. Ou melhor, faziam desejar. Possuia um rosto de mulher que tem atitude. E...Ah! Como tinha atitude...Olhos de gata, que oscilavam entre o verde e o amarelo, quase mel. Quando a viu somente de cinta-liga e espartilho, naquele quarto de hotel, soube que aquele era seu dia de sorte. Ambos foram a um mesmo congresso e, coincidentemente, ficaram no mesmo hotel. Ele fora chamá-la para irem conhecer a noite do Rio e deparou-se com aquela cena. Ah! Como os homens são fracos...Se tornara uma presa fácil para Luana...Naquela noite ele descobriu que quando uma mulher quer algo, ela sempre consegue. Fernando quase teve o impulso de ligar para Luana naquele momento, acabara uma garrafa de cerveja, já estava no bar há quase duas horas, e a noite ainda não havia terminado.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

As mulheres de Fernando, parte 3 - Sílvia.

Mas ele teve outras namoradas. Lembrou de Sílvia. Ah! Silvinha...Uma bela morena, com seios fartos, pele morena clara, um corpo fenomenal, poderia ser até confundida com uma passista de escola de samba. Claro, não havia toda a atmosfera de gliters e fantasias. Conhecera Sílva em uma de suas viagens de férias. Nessas viagens era quando ele mais gostava de desfrutar de todos os prazeres que a vida poderia lhe proporcionar. Todos. Nem sempre ele terminava as férias com algum caso mais sério, mas aquele verão algo diferente aconteceu. Ficava com ciúmes de cada homem que se aproximava daquela morena. E eram muitos. Ela mal lhe dava atenção, e ele, que estava acostumado a receber sempre a atenção das mulheres, tentava despertar o interesse daquela mulher. Ele gostava de desafios. Após uma conversa no bar do hotel, umas margueritas, ele descobriu que ela não era apenas um corpo bonito, era uma mulher culta também. Gostava de poesia, era jornalista, dedicada no trabalho, adorava fotografia, História, artes, cinema e toda forma de cultura. Não era à toa que haviam muitos homens a cercando, sempre. Mas Fernando, quando queria, sabia como agir para conquistar qualquer mulher. E conquistou. Entretanto, não saiu dessa batalha sem nenhum arranhão, se apaixonara por Silvia. Ficaram juntos até que o relacionamento se estabilizou, passou a euforia inicial, e Fernando voltava para seu estado natural. Ela pensava em casar. Ele tinha fobia de relacionamentos mais sérios, para ele os efêmeros casos que ele tinha já lhe bastavam. Ele ainda não estava preparado para ela. Somado a todos esses fatores estava, também, o fato de que ele não resistia a uma mulher bonita. Acabou traindo-a com sua amiga.

Vinho tinto

Era uma noite de primavera, o clima estava agradável, o restaurante era uma varanda com pequenas árvores frutíferas que começavam a florear. Já estivera lá antes. Sim, mas a ocasião era bem mais festiva que aquela. Ela sorvia o vinho como se ao cabo daquela taça o mundo fosse acabar. Pelo menos, era assim que se sentia. Talvez seu mundo ruísse antes mesmo do término do jantar. Queria embriagar-se e esquecer tudo o que lhe afligia. Era cedo ainda, mas, ainda assim, olhou o relógio. Nove e meia. Quanto tempo mais será que faltaria? Ele não conseguia olhá-la nos olhos. Ela sabia o motivo. Poderiam, ao menos, serem amigos? Aquela pergunta soou como uma súplica, afinal, de fato, o era. O último suspiro de desespero, uma última tentativa. Não se humilhe, pensava. Era tarde demais, já estava se humilhando. Desistiu. Passou o resto do jantar calada.

domingo, 12 de julho de 2009

Chá preto e sentimentos

Olhava pela janela. O sol se punha no horizonte, fazendo um belo jogo de cores com as árvores que estavam lá fora. Tomava seu chá preto inglês. Adorava chá no inverno. Adorava sol no inverno. A paisagem lhe dava a sensação de que havia, realmente, algo maior. Aquele momento contrastava com seu íntimo. Estava enfastiada da vida de solteira. Pensava nisso. Não que procurasse desesperadamente alguém, mas já não se sentia onipotente como outrora. Sentia um misto de carência, e algo que ficava entre esperança e desesperança. Não sabia ao certo o que buscava, ou como buscava. Odiava aquela sensação e sabia que outra pessoa poderia conturbar ainda mais aquele momento. Mas o quê faria? Queria libertar-se daqueles sentimentos e não sentir mais nada. Antes, era tão simples, ela apenas preocupava-se com a sua carreira e deixava o amor, paixão e ilusões para os outros. Aquilo não pertencia a ela. Todos sabiam disso. Como fora deixar-se abater? Perguntava como se o sol, ou o seu chá pudessem dar-lhe a resposta que almejava. Sabia que era algo que só ela mesma poderia resolver. Fechou a janela.

sábado, 11 de julho de 2009

As mulheres de Fernando, parte 2 - Rita.

Hoje, Fernando era o tipo de homem que pode ser considerado "cachorro", mas nem sempre foi assim. Lembrou-se de Rita. Sua namorada da faculdade. A primeira. Nessa época, ele ainda era um rapaz que não buscava apenas se divertir com as mulheres. Quase casou-se com Rita. A lembrança dela ainda o abalava. Talvez fosse a única que ele tivesse realmente amado. Ela era inteligente e o subestimava. Ele gostava daquilo. Gostava de ser desafiado. Nunca nenhuma mulher o desafiara tanto como ela. Rita nunca, ou melhor, quase nunca concordava com o que ele dizia. E o pior, ela era eloqüente na sua argumentação. Quando ele não queria ser convencido de algo, precisava ser firme e buscar os mais variados recursos para tentar provar seu ponto de vista, quase sempre, em vão. Rita, apesar de seu físico frágil, quase de menina, era uma mulher forte, tinha personalidade. Ah! Rita... Era uma morena pequenina com os lábios carnudos e bem desenhados, olhos castanhos e alertas, sempre observadores, adoravam os detalhes, ela não tinha o corpo de dar inveja a nenhuma modelo, mas não era feia. Ele gostava dela do jeito que era. Ela era muito crítica, e ele aprendera muito com ela. Terminara com Rita por medo de compromisso. Se sentiu a pessoa mais estúpida do mundo ao se lembrar disso. Ele não pôde negar, poderia enganar aos outros, mas seria inútil tentar enganar-se, ainda amava Rita.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Domingo

Nunca esqueci aquela cena. Luciana. Talvez porque me arrependa até hoje. Ela podia ser a mulher da minha vida. Sentada à beira da cama, me olhava com os olhos injetados de tanto chorar. Eu sabia que ela passara a noite chorando. Ela não tentava mais evitar que eu a olhasse assim. Eu precisava dizer todas aquelas coisas e disse. Disse e não tive coragem de sair dali. Fiquei olhando, talvez, na esperança de ajudá-la. Acabara, mas não a queria mal. Abracei-a. Ela estava ali, lânguida, com esperanças, não sei ao certo. Sei apenas que eu não pensava em mais nada, o mundo se resumia naquela situação. Estava em meus braços, como uma criança perdida. Talvez seja pretensão demais minha em achar isso. Era um domingo. Um domingo pela manhã. Agora a vi do outro lado da rua, em um café. Parece estar feliz com aquele rapaz. Será que é tão apaixonada por ele, como foi por mim? Por Deus! Ciúmes? Pois é...Não é todo o dia que se encontra alguém como Luciana...Não é todo dia que se comete uma estupidez como a daquele domingo...Agora, ela parece feliz, será que devo ir até lá? Não, não, melhor não... A conta, por favor!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Restaurante Vegetariano

Ela não sabia para onde estava indo, apenas seguia o caminho que suas pernas a levavam. Para onde iria? Não sabia. Foi se aproximando da Osvaldo Aranha até lhe surgir alguma idéia. Pegaria um ônibus. Não, não deveria chegar tão cedo no trabalho. Estava passando do corredor de ônibus, chegava próximo ao parque da redenção. As árvores lhe davam uma sensação boa, fazia sol naquela manhã de inverno. Estava feliz. Não sabia ao certo o motivo de toda felicidade repentina, talvez fosse a sensação de liberdade. Liberdade? Poderia ser. Acabara um relacionamento de quase dois anos e não estava triste ou arrependida. Estaria ela errada? Achava que não. Felicidade talvez fosse antônimo de erro. Procuraria o restaurante vegetariano que lhe indicaram. Almoçaria sozinha. Não estava triste ou chateada por almoçar sozinha. Até gostava da idéia. Teria um tempo para pensar na sua vida, refletir. Não fazia a menor idéia de como era o local e não lembrava o nome, apenas tinha como ponto de referência a igreja. Em que altura da rua seria? Já teria passado? Duvidava. Continuou andando. Era próximo do meio-dia, não estava com fome, mas não queria ir para casa. Não se importava de caminhar pela rua, sem rumou ou paradeiro. Até gostava da idéia, colocaria suas idéias em ordem. Avistou a placa do restaurante. Era ali. Entrou.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Nostalgia

Ela desenrolava o papel laminado roxo com o cuidado de um cirurgião. O cheiro doce do chocolate invadiu-lhe as narinas. Deu a primeira mordida. Estava sentada, olhando pra fora da janela do escritório. Olhava que o tempo feio, nublado, começava a abrir. Surigia um sol tímido, que avivava o verde do gramado. Pensava nos acontecimentos dos últimos tempos. Será que se renderia a alguma outra paixão? Será que, se houvesse, seria tão fulgaz, intensa e efêmera como a outra? Achava que seus sentimentos começavam a ser como o sol que surgia em meio às nuvens. Fazia muito tempo que não sentia nada por alguém. Naqueles últimos dias parecia que algo estava diferente. Não estava confusa, nem sabia ao certo o que se sucedia, também não tinha pressa de saber isso. Agora tinha todo o tempo do mundo. Se não desse certo, ela não estava desesperada para acabar, ou começar algo. Ela tinha o melhor dos dois mundos. Tinha um relacionamento estável com seu amigo, faziam os típicos programas de casais, cinema, almoços, jantares, caminhadas, contar sobre a sua vida, seu dia, etc. Ao passo que poderia aproveitar sua vida de solteira como bem entendesse. Saía com quem, quando e onde queria, sem precisar dar satisfações ou preocupar-se com eventuais traições. Lembrou-se de quando era menor, quando a felicidade se resumia a uma caixa de bombons. Como era bom! O mundo era bem menos complicado, sua vida parecia mais simples. Casa, escola, televisão, família e tarefas de casa. O ar nostálgico foi cortado com o barulho da porta de quem estava chegando.

As mulheres de Fernando, parte 1 - Cláudia.

Fernando era um cara interessante. Era o tipo simpático e bonito. Sempre fez sucesso com as mulheres. Mas, talvez, esse fosse seu maior karma. Agora, ele estava ali, sentado na mesa de um bar, não estava triste, mas em busca de sua próxima presa. Olhava ao redor, com a esperaça de encontrar alguém interessante, ou apenas alguma mulher para passar a noite e o tempo. Enquanto isso, resolveu ponderar sua vida amorosa por alguns instantes. Fazia uma semana que Cláudia havia terminado com ele. Não que ele estivesse carente, mas precisava organizar as idéias antes de tomar alguma atitude aquela noite. Era uma sexta-feira, dia em que a noite é um leque de opções. Ele nunca se deixara abalar com o término de seus relacionamentos anteriores, pode ser, também, porque ele era um pouco narcisita. Pensava em Cláudia. Não em como ele sentia, ou sentiria, falta dela, porque talvez não sentisse. Conhecera Cláudia em um avião. Estavam indo para Paris. Que lugar melhor do que Paris para aflorar o amor? Ele pensara isso no avião. Claro, não pensara em aflorar o amor dele, mas que seria um ótimo lugar para começar um caso, era. Pensou isso, principalmente, após colocar os olhos em Cláudia. Que mulher! Cláudia era uma loira, alta, magra, o tipo de modelo de lingerie. Traços bem delineados, rosto com um certo ar angelical, belos olhos verdes. Não refletiam profundidade aqueles olhos, talvez porque ela era o tipo de mulher que servia apenas como modelo de lingerie. Ele não se importara com isso, afinal, ele não era profundo também. Não com uma modelo de lingerie. Pode ser que ele pensasse assim porque ela terminara com ele pois estava apaixonada por um alemão que conhecera em um de seus trabalhos pela Europa. Maldizia, nesse instante, todos os alemães. Bando de nazistas! Bebeu um gole de cerveja.

domingo, 5 de julho de 2009

Horizonte

Ele estava ali, com os pés enterrados na areia branca da praia. Olhava o horizonte com seu sol poente. Anos que não ia à praia. Sempre ficara trancafiado em seu escritório. Saíra de lá direto para a praia. Ainda estava com sua calça social, gravata e a camisa social, agora já enrolada até a altura dos cotovelos. Segurava os sapatos e as meias em uma das mãos. Não que não gostasse do mar, areia, a maresia, a tranquilidade que o oceano lhe passava...Mas esteve sempre muito ocupado para se dedicar aos pequenos prazeres da vida. Sempre achara que teria outro momento para ver o sol se pondo no horizonte. O momento havia chegado. Não era bem o que ele esperava, mas estava ali. Estava desempregado. Já contava com quase cinquenta anos. Não sabia o que fazer. Trabalhara toda sua vida para a empresa. Canalhas! Que falta de consideração! Dera seu sangue, suor e juventude para eles! O que diria para sua família? O que faria agora? Uma vontade de sair gritando pela rua lhe assolou. Queria chorar. Dizem que homens não choram, será que era mesmo verdade? Seus olhos marejaram. Ninguém ali lhe conhecia. Aquele horário, somente vendedores e estudantes iam à praia. Ninguém notaria ele chorando. Não queria falar sobre o assunto no momento. Seria mais uma pessoa anônima na beira da praia. Era um anônimo. Sentia que havia perdido tudo. Pelo menos por aquele instante, o mundo se resumia em sua frustração. Se arrependera de ter se dedicado tanto ao crescimento da empresa em detrimento de sua vida pessoal. As lágrimas começaram a escorrer pela face.

sábado, 4 de julho de 2009

Mariluce

Olhos insanos, selvagens. Assim que ele definia os olhos de Mariluce. Olhos que nem Machado de Assis poderia classificar. Eles possuíam um nefasto magnetismo. E aqueles dois olhos cor de amêndoas lhe fitavam nesse momento. Por Deus! Poderia tomá-la nos braços nesse exato instante. Acreditava que por ela estar ali, na porta de seu apartamento, sem motivo aparente, lhe convidando para um cinema poderia ser um sinal. Mas e o Marcelo? Não podia! Prezava demais a amizade com Marcelo! E, afinal, ele não era um traíra. Mas ela era uma mulher que não era de se jogar fora, ainda mais quando olhava com aquele olhar...Ah, aquele olhar...Ela sabia que poderia chamar qualquer homem apenas com o olhar. E era o que fazia nesse exato momento. Tentava disfarçar, distrair-se com algo, mas tudo nela parecia quase pecaminoso. Ele se agarrava no "quase". Porque sua vontade era render-se às tentações, Marcelo jamais saberia. Jamais? Começava a considerar a hipótese de...Não...ele era um amigo decente, nunca havia pensado na mulher do outro daquela forma. Claro, ela nunca havia olhado daquele jeito para ele. Até o presente momento. Ele procurava a chave, completamente desconcertado, sentindo calafrios a cada passada de olhos em Mariluce. Ela se aproximava. Ela balbuciou algo, que ele, tão absorto em seu dilema, mal pôde escutar. Ah! Aqueles lábios...lábios carnudos que deixariam até mesmo Angelina Jolie com inveja. Hoje, especialmente, estavam com um batom vermelho. Ela raramente usava um batom forte. Aquilo era algo. Era uma provocação. Ele, então, colocou o braço ao redor da cintura de Mariluce e lhe deu um beijo de ânsia e desejo.

Músicas castelhanas, crônica 1

Não há quem faça música triste como os castelhanos. Eu sempre achei que pagode não era música pra dor de cotovelo. Ainda que as letras sejam tentadoras para cortar os pulsos, a melodia alegre afasta o ar melancólico necessário a este estado de espírito. Agora, os castelhanos...Eles são mestres na arte da dor de cotovelo. Tudo bem que é um povo alegre, e quando fazem músicas alegres, são as mais dançantes, mas no quesito músicas tristes não há quem os supere. Acho que é da própria língua espanhola, algo meio arrastado, voz de quem já tomou todas por causa do pé na bunda, coisas assim. Eu escutei uma sequência de três ou quatro músicas em espanhol que falavam sobre o assunto e tive vontade de me atirar do viaduto da borges, sinceramente. Portanto, se você levar um fora fenomenal, de dar dor na região glútea, contente-se com uma cerveja e o popular pagode. Músicas castelhanhas são realmente prejudiciais nessas horas.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Ressaca

Acordara. Sentia-se mal. Estava com ânsia de vômito ainda. O quarto parecia girar. Por Deus! Precisava parar com aquilo! Ainda sentia o gosto de cigarro na boca. Sabia que aquela vida desregrada lhe mataria. Deveria parar com aquilo. Levantou-se. Conseguiu chegar até a pia. Ligou a torneira. Com as mãos em forma de concha levou um pouco de água até a boca. Que sede! Deixou água correr um pouco mais, até esquentar e jogou no rosto. Talvez melhorasse. Os olhos pintados já estavam borrados. A maquiagem forte da noite e a cara de ressaca já lhe deixavam desfigurada. Parecia um zumbi. Fedia a cigarro. Ligou o chuveiro. Saíra pra esquecer, bebera pra esquecer, mas ele ainda estava ali, na sua mente. Deixou a água escorrer sobre a sua cabeça, enquanto ainda repassava a noite passada. Bebera mais do que devia, como sempre. Por quê? Por quê? Ninguém deve sumir sem dar satisfações. Pelo menos algumas informações que pudessem lhe deixar satisfeita. Aquela porta aberta ainda a incomodava. Deveria ser definitivo, ela queria que fosse definitivo. Tinha receio de qual definitivo seria, mas queria arriscar, colocaria tudo a perder, mas tentaria. Caso contrário, se culparia por não ter tentado. O máximo que poderia lhe acontecer seriam algumas sessões (a mais) no psicólogo. Decidiu. Tomaria alguma atitude, e não apenas mais uns drinks na noite. Enrolou-se na toalha e caminhou até o telefone.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Sapatos

Em meio aos vários pares de sapatos, estava ela. Deveria arrumar tudo. A mudança seria em menos de uma semana e havia todas as roupas para arrumarem. Ela se deteve em um sapato em especial. Um marrom novo, de salto alto. Nunca usara. Esperava uma oportunidade especial, que nunca havia chegado, para poder usá-lo. O comprara para ir à festa de casamento de sua irmã, mas mudara de idéia. Deveria usá-lo em outra ocasião. O marido não gostava do sapato. A deixava mais alta que ele. Ela sempre fizera todas as vontades dele. Talvez saísse com o sapato assim que estivesse no apartamento novo. Queria voltar a sair novamente. Como estariam as suas amigas de antigamente? Voltaria a ter contato com elas! Não haviam se falado mais depois que todos os casamentos começaram a ruir. O único que ainda sobrevivera por mais uns anos fora o dela. Mas...por que? Todos terminaram igual. Se lembrava do pensamento que sua mãe tinha sobre divórcios. Que as mulheres divorciadas queriam roubar o marido das que ainda tinham. O pensamento dos homens era que elas colocariam idéias perigosas na cabeça de suas esposas. Riu. A verdade é que nem todos os casamentos têm finais felizes. Quase todos. Mas alguns conseguem manter as aparências por mais tempo. Guardou na caixa de papelão o sapato.