sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Paixões & Intrigas, parte II.
Nesse momento, temeu que o descobrissem e saiu, às pressas, pela varanda. Respirava o ar fresco do começo da noite e observava os cocheiros com suas carroças atravessando as ruelas e avenidas. Tentava distrair-se enquanto ela ainda estava em seu quarto. Servia-se, agora, de vinho do porto, enquanto apreciava o movimento. Henrique acabara de voltar da França, onde estudara direito, ainda estava se reacostumando com a cidade natal. Atualmente, morava com o irmão, Carlos, um banqueiro bem sucedido, pouco mais velho que Henrique, mas se casara cedo com a bela Teresa. Carlos era um homem bonito, de porte, moreno, tez branca, barba sempre bem aparada, gostava de vestir-se bem, com os melhores ternos dos mais brilhantes alfaiates. Gostava de ostentar o que possuía, dinheiro, status, poder e uma exuberante esposa. Ele nunca teve motivos para desconfiar de qualquer atitude dela, afinal, era a moça mais santa e tímida de toda a cidade. Gostava disso na mulher, sentia até um certo prazer em possuir aquela figura tão casta. Para ele, ela parecia uma boneca chinesa de porcelana, parecia tão frágil...e pertencia somente a ele.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Paixões & Intrigas, parte I
Observava Teresa, sua cunhada, por uma fresta da porta entreaberta, enquanto ela penteava seus cabelos. Teresa tinha esse nome porque a mãe não conseguia engravidar e já estava ficando velha demais para isso e prometeu à santa, caso nascesse uma menina, dar-lhe este nome em homenagem. Então, nasceu Teresa, a morena dos olhos verdes, cabelos negros cacheados que lhe caíam no colo sobre a pele branca que saltava do decote e estava a enlouquecer Henrique. Não podia mais olhar para a cunhada que logo lhe vinham pensamentos eróticos envolvendo Teresa, que de santa parecia possuir apenas o nome. O corpo, os olhos, a voz e tudo que a envolvia parecia ter vindo direto do inferno. E era para lá que ele imaginava que iria por estar fantasiando com a mulher de seu irmão! Teresa tinha um quê de mistério e pecado que lhe tirava o sono. Precisava possuir aquela mulher. Mas como? Era mulher de seu irmão!
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Sofia.
-Droga!
Olhava parada a tela do computador. Outro bloqueio criativo. Mas, agora, os motivos eram outros. Não conseguia escrever como antes, desde o aparecimento do dito Anônimo e as suas charadas, que não faziam o menor sentido para ela. Sentia um misto de curiosidade e medo, sentia-se como Sofia, em O Mundo de Sofia, mas sem o curso de filosofia. O mais interessante era que parecia que ele, ela, seja lá quem fosse, parecia ler a sua mente e estar sempre um passo à frente. Quem seria? Não conhecia ninguém que se encaixasse na descrição. Começava a temer que cada palavra que escrevesse denunciasse o que estava sentindo...Tentou escrever por diversas vezes, mas não conseguia ultrapassar mais do que duas linhas. Começava a acumular diversos rascunhos para terminar outra hora. Aquela situação já estava lhe angustiando, levantou-se e foi até o banheiro. Nada que uma boa ducha quente não pudesse resolver, abriu a torneira e esperou. Esperou enquanto suas idéias se organizavam, enquanto sua imaginação ia longe, enquanto tentava entender algo...A água quente lhe acalmava e fazia esquecer tudo, seu dia, suas frustrações, suas angústias e concentrava-se somente na música que tocava no rádio. A essa altura os espelhos já estavam totalmente embaçados, enrolou-se na toalha e sentou-se novamente na frente do computador.
Olhava parada a tela do computador. Outro bloqueio criativo. Mas, agora, os motivos eram outros. Não conseguia escrever como antes, desde o aparecimento do dito Anônimo e as suas charadas, que não faziam o menor sentido para ela. Sentia um misto de curiosidade e medo, sentia-se como Sofia, em O Mundo de Sofia, mas sem o curso de filosofia. O mais interessante era que parecia que ele, ela, seja lá quem fosse, parecia ler a sua mente e estar sempre um passo à frente. Quem seria? Não conhecia ninguém que se encaixasse na descrição. Começava a temer que cada palavra que escrevesse denunciasse o que estava sentindo...Tentou escrever por diversas vezes, mas não conseguia ultrapassar mais do que duas linhas. Começava a acumular diversos rascunhos para terminar outra hora. Aquela situação já estava lhe angustiando, levantou-se e foi até o banheiro. Nada que uma boa ducha quente não pudesse resolver, abriu a torneira e esperou. Esperou enquanto suas idéias se organizavam, enquanto sua imaginação ia longe, enquanto tentava entender algo...A água quente lhe acalmava e fazia esquecer tudo, seu dia, suas frustrações, suas angústias e concentrava-se somente na música que tocava no rádio. A essa altura os espelhos já estavam totalmente embaçados, enrolou-se na toalha e sentou-se novamente na frente do computador.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Mariana e seus casos, parte 2.
Lembravam-se dos últimos acontecimentos, quando Mariana envolvera-se apenas com homens comprometidos, nem sempre por gosto. Parecia que havia tornado-se uma espécie de karma para ela...Não fazia pouco mais de três ou quatro meses que, aparentemente, "se libertara". Parecia mais tempo, para alívio dela...A verdade é que, na época, aquilo não lhe afetava muito. Nunca fora de se deixar convencer por uma boa conversa, sorrisos bonitos, olhos e olhares encantadores... Mariana era contra qualquer tipo de relacionamento, boa parte desse posicionamento devido ao seu ex-namorado, a outra metade seria uma espécie de "instinto natural" que emanava dela, claro, tudo isso corroborado com o reiterado -e famigerado- comportamento masculino. Um instinto de quase auto-preservação - que, convenhamos, a havia abandonado há cerca de um mês, deixando-a totalmente desnorteada e fora de controle. Lembrava-se de quando desistira de perguntar se havia alguma namorada e passara a quase afirmar, tendo, em quase unanimidade, respostas positivas.
- Só podia ser Karma!! - riram.
Um, em especial, comentaram. Pelo fato de ser um tanto quanto exóticas as "aparições" do rapaz. Claro, que haviam outros casos mais sérios, cujas namoradas, ou esposas, haviam entrado em contato com ela. Mas esse beirou à comédia. Marcelo. Haviam se conhecido em uma festa, atração à primeira vista. Cláudia, como sempre, estava junto nessa empreitada da amiga...Mariana havia se empolgado com o rapaz, quando, após uns dias, descobriu a existência de uma namorada. Decepcionou-se um pouco, mas nada que a impedisse de o encontrar novamente. Por diversas vezes viram-se, ainda que ele morasse em outra cidade, sempre que passava por ali, saíam. Uma das últimas vezes que encontraram-se foi na praia. Mariana estava em uma festa, com vários ambientes, extremamente chateada por ter perdido uma quantia significativa de dinheiro e mais uma lente. Ou seja, estava enchergando bem somente com um dos olhos...Tratando-se dela, era um tanto quanto perigoso, pois ela era conhecida por ser desatenta e fácil de perder-se. Mas, ainda assim, Mariana encontrara "o amor de sua vida". Não era Marcelo, certamente. Sua amiga, Cláudia, conversava com um rapaz, enquanto Mariana ficava ao seu lado, com um misto de chateação e animação, por mais antagônico que possa parecer. Já estava amanhecendo e elas não tinham carona para voltarem, quando o rapaz que Cláudia conversava ofereceu carona para elas. Fazia frio e Mariana estava ficando impaciente, aproveitou que uns amigos estavam indo para casa e pegou carona logo com eles. Ao chegar na casa, Mariana tratou logo de se arrumar para dormir, quando, minutos depois, Cláudia entrava casa adentro com o rapaz e...Marcelo? Pois era verdade...Marcelo era amigo do rapaz que conversava com Cláudia, seria apenas acaso? Claro que era, mas agora, quase sete horas da manhã, de baby doll, descalça, Mariana estava na frente da casa de praia se despedindo de Marcelo.
- Tu não presta, Mari!
- Só podia ser Karma!! - riram.
Um, em especial, comentaram. Pelo fato de ser um tanto quanto exóticas as "aparições" do rapaz. Claro, que haviam outros casos mais sérios, cujas namoradas, ou esposas, haviam entrado em contato com ela. Mas esse beirou à comédia. Marcelo. Haviam se conhecido em uma festa, atração à primeira vista. Cláudia, como sempre, estava junto nessa empreitada da amiga...Mariana havia se empolgado com o rapaz, quando, após uns dias, descobriu a existência de uma namorada. Decepcionou-se um pouco, mas nada que a impedisse de o encontrar novamente. Por diversas vezes viram-se, ainda que ele morasse em outra cidade, sempre que passava por ali, saíam. Uma das últimas vezes que encontraram-se foi na praia. Mariana estava em uma festa, com vários ambientes, extremamente chateada por ter perdido uma quantia significativa de dinheiro e mais uma lente. Ou seja, estava enchergando bem somente com um dos olhos...Tratando-se dela, era um tanto quanto perigoso, pois ela era conhecida por ser desatenta e fácil de perder-se. Mas, ainda assim, Mariana encontrara "o amor de sua vida". Não era Marcelo, certamente. Sua amiga, Cláudia, conversava com um rapaz, enquanto Mariana ficava ao seu lado, com um misto de chateação e animação, por mais antagônico que possa parecer. Já estava amanhecendo e elas não tinham carona para voltarem, quando o rapaz que Cláudia conversava ofereceu carona para elas. Fazia frio e Mariana estava ficando impaciente, aproveitou que uns amigos estavam indo para casa e pegou carona logo com eles. Ao chegar na casa, Mariana tratou logo de se arrumar para dormir, quando, minutos depois, Cláudia entrava casa adentro com o rapaz e...Marcelo? Pois era verdade...Marcelo era amigo do rapaz que conversava com Cláudia, seria apenas acaso? Claro que era, mas agora, quase sete horas da manhã, de baby doll, descalça, Mariana estava na frente da casa de praia se despedindo de Marcelo.
- Tu não presta, Mari!
domingo, 9 de agosto de 2009
Construção.
Eram três homens comuns, sentados na mureta com seus uniformes, após o almoço, esperando a hora de retornar para o trabalho. O sol do meio-dia queimava no alto do céu e formava uma leve ilusão de ótica junto à calçada. Estava realmente quente, os corpos jogados em um canto da construção, quase amontoados embaixo de um pedaço de sombra que o andaime fazia demostravam tal situação. Seus semblantes refletiam a parca sabedoria, o trabalho árduo e o cansaço. As mãos calejadas mostravam que aqueles homens necessitavam daquele serviço, deveriam ser a única fonte de sustento da família. Quantos filhos será que teriam que sustentar? Desde que horas estariam acordados? Eram três homens anônimos, em meio a quase uma centena de operários. Eram tão importantes, mas ao mesmo tempo tão insignificantes... Talvez não possuíssem nem o discernimento suficiente para poderem entender tal situação... Eram invisíveis aos olhos dos que passavam na rua, trabalhavam no silêncio de suas mentes e almas e junto ao barulho das máquinas e ferramentas. Uma dicotomia quase filosófica.
Uma moeda de ouro.
Em uma manhã de quarta-feira, o que não lhes fazia muita diferença, pois o único dia em que a rotina era quebrada eram aos domingos, quando havia a missa. Logo, seguiam os dois meninos em direção ao mercado, eram dois meninos simples, de famílias humildes, que desviavam, no momento, de apressadas carruagens, vestidos, mucamas, senhores e escravos. Não chegavam a serem escravos, eram os ditos "ventres-livres", embora não fizesse muita diferença, mal conheciam o significado do que aquilo queria dizer, embora se enchessem de orgulho toda vez que iriam referir-se a isto. Caminhavam com passos curtos e apressados, o sol começava a nascer no horizonte e o dia seria longo. O mais novo, de aproximadamento uns oito anos, caminhava com uma vareta enfiada no chão, fazendo desenhos na areia que logo eram apagados com os passos dos viajantes e transeuntes. Iriam ao mercado da cidade, com seus poucos níqueis, comprariam o necessário e voltariam para a fazenda. Uma surpesa, no entanto, transformou o dia daqueles dois meninos. Um pedacinho de metal reluzia tanto como os raios solares. Eles já haviam visto, na mão dos senhores e de todo o tipo de gente que passava por ali, mas seria verdade? Teriam eles encontrado uma moeda de ouro, de verdade? Poderia ser o famoso ouro de tolo, aquele pelo qual já ouviram diversas histórias e estórias...Mas haveria de existir algum Deus que os ajudasse...Juntaram a moeda e colocaram junto à algibeira com seus níqueis.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
As mulheres de Fernando, parte 9 - A ruiva V, Ana.
No apartamento, havia uma decoração de várias partes do mundo, demonstrando o tipo de pessoa que ela era. Não era dada à família, mas ao mundo. Fotografias em preto-e-branco estampavam uma das paredes da sala de estar, contrastando com as almofadas no outro canto, próximo a um narguile. O carpete no chão, juntamente com as paredes em laranja, davam um ar aconchegante ao lugar. Ambos já estavam levemente embriagados, mas ainda assim, ele não conseguiu resistir quando ela lhe ofereceu uma dose de tequila. A conversa já não lhe interessava mais, quando Ana foi buscar os copos e a garrafa, Fernando a seguiu. Aproveitou a primeira oportunidade que teve e enlaçou sua cintura, aproximando-a de seu corpo e a beijou voluptuosamente. Um antigo lustre fazia uma iluminação suave, fornecendo o cenário ideal para as cenas que se seguiriam.
Ilusão.
Chovia, no aeroporto deserto, seu vestido de bolinhas se perdia em meio a mãos, braços e desejo...Tentava disfarçar com seu lenço vermelho, mas não conseguia conter-se. Traía a si mesma a cada beijo dado, prometera-se nunca mais o encontrar. Ela sabia que não conseguiria cumprir o prometido, trair-se era apenas completar o planejado, apenas havia dito aquilo para que a separação pudesse ser mais amena quando ele sumisse. Poderia até parecer falta de amor-próprio o fato de estar ali, com ele...e era. Saíra correndo da festa para encontrá-lo. Estava determinada a apenas conversar, mas não conseguiu resistir. Ela sabia que não resistiria, mas foi. Perqueria-se se valera o esforço, mas para essa pergunta a resposta parecia unânime: não. Não era mais tão ingênua como antes, sabia que havia se apaixonado por uma ilusão. A imagem que tinha daquele homem era algo idealizado, algo presumido em apenas um encontro, agora, estava ele ali, na sua frente, e não era nada parecido com o que se lembrava. Era apenas uma ilusão, mas...como era doce aquela ilusão... Não queria aceitar a verdade. Ele seria apenas mais um. E era. Tudo traduzia-se em uma mera relação de pele, desejo, atração e carne. Era sempre assim.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Mariana e seus casos, parte 1.
Entre um sushi e outro, Mariana conversava com Cláudia, sua melhor amiga. Conheciam-se de anos, sabiam aspectos da vida uma da outra e, embora tivessem personalidades completamente opostas, consideravam-se praticamente irmãs. Mariana seria, certamente, a irmã mais nova, a mais inconsequente e impulsiva. O assunto da conversa que as entretia tanto eram os antigos - e os atuais - casos de Mariana. Mariana sempre foi uma mulher de fases, nunca se prendendo a um estereótipo apenas. Suas mudanças refletiam-se não somente em suas atitudes, mas também na escolha da sua companhia. Já saíra com vários tipos estranhos, já frequentara vários estilos de festas, lugares e métodos de encontros. Para a sua pouca idade, vinte e poucos anos, ela tinha um belo currículo e uma ótima experiência com homens. Não que os compreendesse em uma totalidade, nunca se empenhara em tentar entendê-los, mas já possuía alguma noção de como a mente masculina trabalhava. Mariana sempre foi uma feminista e achava que as mulheres possuíam as mesmas prerrogativas que os homens, talvez fosse por isso que havia uma certa rotatividade nos homens de sua vida. Nunca se apaixonara perdidamente por um só, sempre haviam várias probabilidades - o que Cláudia sabia bem- embora nos últimos tempos Mariana não fosse mais a mesma, nem ela própria se reconhecia. Estava ficando uma mulher séria, o mesmo tipo das que ela zombava outrora. Talvez fosse por este motivo que estivesse jantando com Cláudia.
domingo, 2 de agosto de 2009
As mulheres de Fernando, parte 8 - A ruiva IV, Ana.
- Vamos? Perguntou a moça - Já são quase três! Nem vi o tempo passar!
- Veio com as amigas?
Amigas que aquela altura da manhã já estavam conversando com dois rapazes, um loiro, que parecia ter saído de algum seriado americano e um moreno, baixinho, que aparentava ser mais tímido que o loiro.
- Sim...
- Quer uma carona? Eu te levo e já aproveito para ver as fotos!
- Claro! - falou abrindo um sorriso.
Que dentes! Dentes que lhe tiravam um pedaço do juízo nesse instante. Um soriso quase tímido, quase. Era um sorriso beirando a malícia. O que será que aquela ruiva que havia passado tempos na Ásia, não somente em Cingapura, havia planejado para o fim daquela noite? Seja lá o que fosse, ele estava ansioso para saber o que era.
- Então vamos! - Falou já se levantando.
No caminho, Ana lhe dava as coordenadas enquanto comentava, ainda empolgada, com a Ásia, as cores, os costumes, a culinária...
- É aqui! - Apontou para um portão creme, de um enorme prédio com um jardim florido.
- Veio com as amigas?
Amigas que aquela altura da manhã já estavam conversando com dois rapazes, um loiro, que parecia ter saído de algum seriado americano e um moreno, baixinho, que aparentava ser mais tímido que o loiro.
- Sim...
- Quer uma carona? Eu te levo e já aproveito para ver as fotos!
- Claro! - falou abrindo um sorriso.
Que dentes! Dentes que lhe tiravam um pedaço do juízo nesse instante. Um soriso quase tímido, quase. Era um sorriso beirando a malícia. O que será que aquela ruiva que havia passado tempos na Ásia, não somente em Cingapura, havia planejado para o fim daquela noite? Seja lá o que fosse, ele estava ansioso para saber o que era.
- Então vamos! - Falou já se levantando.
No caminho, Ana lhe dava as coordenadas enquanto comentava, ainda empolgada, com a Ásia, as cores, os costumes, a culinária...
- É aqui! - Apontou para um portão creme, de um enorme prédio com um jardim florido.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
domingo, 26 de julho de 2009
Brisa
Estava sentada na rede, fazia sol e a leve brisa marítima lhe fazia viajar em seus pensamentos. Queria esquecer, mas será que ainda poderia? Estava em um divisor de águas entre sua vida nova e a antiga. Sentia-se como uma criança assustada, sempre estivera com tudo sob controle e agora, cada vez mais, parecia que nenhum dos acontecimentos dependia dela. Todos se movimentavam como atores de uma cena, e ela se sentia como uma mera figurante, uma figurante de sua própria vida. Será que se permitiria novamente gostar de alguém? Não fazia muito tempo...quer dizer...já fazia algum tempo, sim, mas...Talvez ainda não estivesse pronta para um novo relacionamento... Se sentia imatura ainda. Talvez não tivesse aprendido tudo o que deveria com o caso anterior...Já não queria mais pensar nisso, já não queria pensar em mais nada, não queria sentir mais nada. Mas, era tarde demais, já estava se tornando inevitável para ela controlar o que estava sentindo. Cansou de lutar contra o destino, deixou ser tragada para as profundezas do desconhecido.
As mulheres de Fernando, parte 7 - A ruiva III, Ana.
- Pois é...E a fotografia? Me fala mais! - Cortou ele, para mudarem de assunto.
- Ah...- disse como se lembrasse de algo- São casamentos, quinze anos, batizados, festas em geral, books...coisas do tipo. Mas, o que eu mais gosto é de viajar e tirar fotos do mundo.
- Fotos do mundo? Quais foram as últimas?
- As últimas foi da minha estada em Cingapura! Eu fiquei uma semana, mas já pude ter uma noção de como é lá...As fotos ficaram ótimas!
- É?
- Claro, depois não quer ir lá em casa pra eu poder te mostrar?
- Claro!
Conversaram mais algumas banalidades, Fernando disfarçava sua ansiosidade de chegar ao apartamento de Ana. Ansiosidade que não era apenas para ver as fotos que a moça tirara de Cingapura. Talvez tirassem outras coisas além de fotos aquela noite.
- Ah...- disse como se lembrasse de algo- São casamentos, quinze anos, batizados, festas em geral, books...coisas do tipo. Mas, o que eu mais gosto é de viajar e tirar fotos do mundo.
- Fotos do mundo? Quais foram as últimas?
- As últimas foi da minha estada em Cingapura! Eu fiquei uma semana, mas já pude ter uma noção de como é lá...As fotos ficaram ótimas!
- É?
- Claro, depois não quer ir lá em casa pra eu poder te mostrar?
- Claro!
Conversaram mais algumas banalidades, Fernando disfarçava sua ansiosidade de chegar ao apartamento de Ana. Ansiosidade que não era apenas para ver as fotos que a moça tirara de Cingapura. Talvez tirassem outras coisas além de fotos aquela noite.
Uma noite, um bar, três amigas - II
Bruna, que era a mais irreverente de todas, pediu uma cerveja, Sofia estava dirigindo e Mariana não bebia. Começaram contando de suas semanas, trivialidades, amores...Cada uma havia uma particularidade, uma história, um caso, mas todas convergiam para um mesmo ponto. Nenhuma estava satisfeita. Cada uma de sua maneira, mas nenhuma estava. Bruna ainda não acreditava que um homem havia terminado algo que sequer havia começado. Ainda que ela não fosse de se apaixonar, estava surpresa. Surpresa consigo mesma por gostar de alguém que ela mal conhecia e com a atitude do estranho. Ele parecia diferente, não tão imaturo quanto os que ela estava acostumada, mas a verdade era que ele era o pior de todos. Mariana estava com seu dilema ainda a respeito de seu namorado. Ela gostava dele, mas achava que não o suficiente para amá-lo. Somado a isso, o grande amor da sua vida estava voltando para o país. Ela sabia que ele não era a mesma pessoa pela qual ela havia se apaixonado, mas não conseguia se libertar daquela imagem do passado. Ele ainda a perturbava. Ela não conseguia se envolver com outros rapazes. Estava namorando por comodismo, mas não estava segura se gostava ou não dele, essa era a pior parte. Ela parecia gostar do seu namorado, mas não gostava. A falsa impressão lhe fez cometer diversos erros. Ela levava aquela situação o quanto ainda podia, mas não sabia até quando. Sofia estava perplexa por ter sido esnobada por aquele rapaz que outrora era apaixonado por ela. Sofia gostava de ser bajulada, como uma boa leonina, e nunca gostava de "perder". Não havia "não" em seu dicionário, era competitiva e sabia o que queria. Queria ele. Talvez, nem ela mesma gostasse tanto do rapaz, mas o gosto de vencer uma possível concorrente já era o suficiente para ela. Mas, ainda, as três estavam experimentando uma sensação de rejeição por quem elas gostavam. Seria justo? Não sabemos se seria justo, mas a verdade era que elas tinham as amigas e que poderiam confiar umas nas outras. Ao menos esperavam que fosse assim.
As aparências enganam
Maria Eduarda e Miguel eram um casal normal, faziam cinco anos de casados em poucos dias. As pedras de granizo batiam violentas no vidro do carro no caminho de volta.Voltavam de um jantar dos empresários do lugar onde Miguel trabalhava, chovia torrencialmente. Já no elevador do seu prédio, seguiam para o nono andar. Eram quase duas horas da manhã. Próximo ao quinto andar o elevador pára e as luzes se apagam.
- Miguel?
- Sim?
- E agora?
- Agora que nós temos que esperar a porcaria da luz voltar para conseguirmos chegar no nosso andar, ou tu achas que alguém vai nos escutar, ou, ao menos, notar que a luz acabou e que, possivelmente, alguém poderia estar no elevador?
- Tá, tá...- respondeu como estivesse se desculpando pela pergunta anterior.
Silêncio...
- Miguel?
- Que foi?! - disse num tom quase impaciente.
- Eu notei que tu andas estranho ultimamente, tá tendo um caso?
Nesse momento ele gelou, como será que ela havia descobrido? Ele não havia feito nada diferente da rotina nos últimos tempos. Nos últimos tempos. A questão era que o caso já não era tão novo, como ela poderia ter descoberto?! Mas ele não daria o braço a torcer, não, ele não podia.
- Não! Por Deus, de onde tu tirou essa idéia?
- Nada, não...
Ela já sabia há alguns meses. Meses? Talvez mais, mas não tinha motivos para perquerir o marido, afinal, ela também tinha seus affairs também. Entretanto, ela havia resolvido colocar um basta naquela situação. Eram duas pessoas adultas, casados, já não havia razão de mentiras. De ambos.
- Eu preciso te contar uma coisa.- falou ela, interrompendo novamente o silêncio que se formara novamente.
- Hum...
- Eu tô tendo um caso também.- sem alterar a voz e cortando a escuridão.
- Como assim "também"? Já te disse que não tenho caso nenhum! Com quem?! Como?! Porquê?! Eu sempre fiz tudo que tu quis! - Falou já alterando a voz com um misto de raiva e incredulidade.
- Miguel, não mente mais, eu sei de tudo. E tu não reparou a forma como tu tens me tratado?! Sempre agressivo, cansado, irritado, não me dá atenção, me deixa sozinha...Uma mulher também tem suas necessidades. Eu precisava me sentir bem, bonita, desejada, sexy, coisas que tu tem deixado muito a desejar. Certamente tu tem te dedicado à Julia tanto, que mal pode suprir o que tu tinhas em casa. Pra mim já chega. Eu quero o divórcio, não tá dando.
- Duda...- falou tentando agarrar-se a alguma réstia de seu casamento- Por quê?
- Amanhã a gente conversa melhor.
- Miguel?
- Sim?
- E agora?
- Agora que nós temos que esperar a porcaria da luz voltar para conseguirmos chegar no nosso andar, ou tu achas que alguém vai nos escutar, ou, ao menos, notar que a luz acabou e que, possivelmente, alguém poderia estar no elevador?
- Tá, tá...- respondeu como estivesse se desculpando pela pergunta anterior.
Silêncio...
- Miguel?
- Que foi?! - disse num tom quase impaciente.
- Eu notei que tu andas estranho ultimamente, tá tendo um caso?
Nesse momento ele gelou, como será que ela havia descobrido? Ele não havia feito nada diferente da rotina nos últimos tempos. Nos últimos tempos. A questão era que o caso já não era tão novo, como ela poderia ter descoberto?! Mas ele não daria o braço a torcer, não, ele não podia.
- Não! Por Deus, de onde tu tirou essa idéia?
- Nada, não...
Ela já sabia há alguns meses. Meses? Talvez mais, mas não tinha motivos para perquerir o marido, afinal, ela também tinha seus affairs também. Entretanto, ela havia resolvido colocar um basta naquela situação. Eram duas pessoas adultas, casados, já não havia razão de mentiras. De ambos.
- Eu preciso te contar uma coisa.- falou ela, interrompendo novamente o silêncio que se formara novamente.
- Hum...
- Eu tô tendo um caso também.- sem alterar a voz e cortando a escuridão.
- Como assim "também"? Já te disse que não tenho caso nenhum! Com quem?! Como?! Porquê?! Eu sempre fiz tudo que tu quis! - Falou já alterando a voz com um misto de raiva e incredulidade.
- Miguel, não mente mais, eu sei de tudo. E tu não reparou a forma como tu tens me tratado?! Sempre agressivo, cansado, irritado, não me dá atenção, me deixa sozinha...Uma mulher também tem suas necessidades. Eu precisava me sentir bem, bonita, desejada, sexy, coisas que tu tem deixado muito a desejar. Certamente tu tem te dedicado à Julia tanto, que mal pode suprir o que tu tinhas em casa. Pra mim já chega. Eu quero o divórcio, não tá dando.
- Duda...- falou tentando agarrar-se a alguma réstia de seu casamento- Por quê?
- Amanhã a gente conversa melhor.
domingo, 19 de julho de 2009
As mulheres de Fernando, parte 6 - A ruiva II, Ana.
- Quanto tempo, hein, Fernando? - Disse a moça puxando a cadeira.
As duas amigas da ruiva se sentiram constrangidas de sentarem junto com eles, certamente elas estavam procurando outro tipo de companhia para aquela noite. Elas passaram mais algumas mesas e sentaram em um canto do bar, voltadas para a porta e para eles. Fernando também não fazia questão de que elas ficassem na mesma mesa, por isso nem se manifestou.
- Pois é...Quando que foi a última vez que nos vimos?- Blefou ele, tentando descobrir de onde conhecia a misteriosa, e bonita, mulher que o abordara.
- Acho que foi na festa da Marcinha, não lembra?
Ponto! Conseguira arrancar dela alguma informação que a vinculasse a algum conhecido, no caso, uma conhecida. Marcinha era amiga de sua ex-namorada, Rita, agora precisava saber se ela o conhecera com sua ex. Talvez a informação do término do namoro desperte alguma comoção por parte dela.
- É verdade! Nossa isso faz...
- Quase cinco anos!
Mais um ponto! Ele a conhecera, mas não havia tido nenhum envolvimento com aquela mulher, ainda. Ela estava ali, sentada na frente dele, ela que havia tomado a iniciativa, alguma coisa ela queria...
- Desculpa, nem ofereci, uma cerveja? - falou, levantando a garrafa.
- Sim, por favor.
- O que tem feito da vida? Desculpa, mas não me lembro teu nome...
- Ana! Ah...Eu tenho trabalhado só...Me formei em publicidade, mas tenho trabalhado com fotografia...e tu? O que tem feito? E a namorada, a...
- Rita! - falou interrompento a moça.
- Isso, a Rita! Vocês continuam juntos?
Ah! Ele só estava esperando essa pergunta fatídica, era hora do show.
- Pois é...Nós terminamos...Não deu muito certo...Já faz algum tempo...
- Ah...- falou não muito incomodada com a informação.
As duas amigas da ruiva se sentiram constrangidas de sentarem junto com eles, certamente elas estavam procurando outro tipo de companhia para aquela noite. Elas passaram mais algumas mesas e sentaram em um canto do bar, voltadas para a porta e para eles. Fernando também não fazia questão de que elas ficassem na mesma mesa, por isso nem se manifestou.
- Pois é...Quando que foi a última vez que nos vimos?- Blefou ele, tentando descobrir de onde conhecia a misteriosa, e bonita, mulher que o abordara.
- Acho que foi na festa da Marcinha, não lembra?
Ponto! Conseguira arrancar dela alguma informação que a vinculasse a algum conhecido, no caso, uma conhecida. Marcinha era amiga de sua ex-namorada, Rita, agora precisava saber se ela o conhecera com sua ex. Talvez a informação do término do namoro desperte alguma comoção por parte dela.
- É verdade! Nossa isso faz...
- Quase cinco anos!
Mais um ponto! Ele a conhecera, mas não havia tido nenhum envolvimento com aquela mulher, ainda. Ela estava ali, sentada na frente dele, ela que havia tomado a iniciativa, alguma coisa ela queria...
- Desculpa, nem ofereci, uma cerveja? - falou, levantando a garrafa.
- Sim, por favor.
- O que tem feito da vida? Desculpa, mas não me lembro teu nome...
- Ana! Ah...Eu tenho trabalhado só...Me formei em publicidade, mas tenho trabalhado com fotografia...e tu? O que tem feito? E a namorada, a...
- Rita! - falou interrompento a moça.
- Isso, a Rita! Vocês continuam juntos?
Ah! Ele só estava esperando essa pergunta fatídica, era hora do show.
- Pois é...Nós terminamos...Não deu muito certo...Já faz algum tempo...
- Ah...- falou não muito incomodada com a informação.
Xadrez
Caminhava pela rua sentindo o vento fresco no rosto. Não estava frio, mas uma temperatura agradável, parecia mais primavera ou outono, não inveno. Ignorava tudo, ignorava todos. De fato, não havia outras pessoas na rua para que ela pudesse ignorar, ainda que a noite não estivesse tão fria. Gostava de caminhar, parecia que as idéias se organizavam em sua mente. Naquele momento, nenhuma idéia ocupava a sua mente para poder ser organizada, caminhava apenas. Ainda tinha tempo, faltavam quarenta e cinco minutos e sabia que conseguiria chegar em quinze, no máximo, portanto seguiu a direção oposta, daria uma volta maior, aproveitaria a noite. Fez um dia bonito, mas só quando a noite chegou que se animou a sair de casa, era fato que gostasse da noite. Parou em uma sinaleira, poderia ser qualquer outra, mas parou naquela, voltaria e faria o caminho tradicional. Atravessou a rua, olhou a placa e não acreditou. Era a rua. Suas pernas a levaram para um caminho mais curto e não um mais longo. Aquele truque de seu subconsciente lhe assustou um pouco, desceu a lomba e se questionava sobre o que estaria acontecendo, será que destino existe mesmo? Levara aquele fato para um âmbito mais amplo. Será que era para ser? Questionava-se, agora, sobre a sua própria vida e o que havia acontecido nos últimos meses. Será que ela controlaria algo, ou seria apenas mais uma peça no xadrez da vida? Que os jogadores façam seu próximo movimento, pensou.
sábado, 18 de julho de 2009
Madrugada, Whisky e Cigarros.
Estava na sacada, já não importava mais o horário. Fumava e pensava na sua vida com um copo de Whisky com pedras de gelo boiando em uma das mãos. O clima de inverno produzia uma serração que fazia a noite ficar levemente branca. Apesar de estar frio, ele já não tinha mais os sentidos, o Whisky já o estava entorpecendo. Contava com pouco mais de sessenta anos e estava pensando o que fizera durante sua vida. Será que todo o esforço valera a pena? Será que as pessoas que diziam amá-lo, realmente, o amavam? Seus filhos já estavam adultos, já não tinha preocupações. Tinha feito um bom trabalho como pai, mas será que a contrapartida era verdadeira? Não conseguia sentir o amor dos filhos, por mais que estes se fizessem presentes. Pensava sobre seu casamento. Casara muito jovem, com a sua primeira namorada. Ele a amava, mesmo após tantos anos, mas não tinha certeza se sua esposa ainda o amava como outrora. Não estava questionando a fidelidade da esposa, nem seu respeito, mas sim a paixão. Já não sentia a mesma paixão que ela parecia exalar pelos poros há alguns anos antes. É bem verdade que já haviam passado por muitas coisas juntos, o que serviu para fortalecerem mais sua relação, embora companheirismo e respeito não sejam a mesma coisa que paixão. Ele sempre fora um bom marido, sempre tentou ajudar no que pôde, foi paciente, tolerante, tavez, até demais. Em poucos dias completaria mais um ano de vida. Será que valeria a pena mais um ano? Soltou uma baforada de fumaça.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Uma noite, um bar, três amigas - I
Era um bar irlandês, onde elas estavam sentadas em uma mesa. Era começo de inverno, fazia um leve frio, que, ainda assim, não impediu que as amigas se reencontrassem. Fazia pouco mais de um mês que as três não se reuniam, ainda que Bruna e Sofia fossem colegas de faculdade. Quem menos tinha contato com as amigas era Mariana. Bruna e Mariana conheceram-se na quarta série de um jeito um tanto quanto curioso, Bruna estava liderando uma excursão (por conta própria) para o matagal que havia na sede campestre da escola, quando conheceu Mariana, que foi a primeira voluntária a querer se aventurar a ir com ela. Bruna sempre fora uma menina irresponsável e por este motivo conheceu Sofia, para quem ela sempre pedia materiais emprestados na escola. É verdade que Bruna e Sofia sempre foram muito amigas e com o tempo foram se tornando mais amigas de Mariana. Hoje estavam ali. Possuíam muitas histórias em comum, se importavam umas com as outras, eram quase irmãs. Quase.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Andrófago.
Com os dedos gorduchos e ensebados de gordura, abriu a carta. A vela sobre a mesa iluminava palidamente o ambiente e dava um ar quase maquiavélico àquela figura. Quase, mas ele ainda era um gordo que todos sabem, ou pelo menos acham, ser uma pessoa pacífica e dócil. Será que estariam todos certos? O velho fogão a lenha esquentava àgua para a sopa e fazia a chaleira gritar. Leu rapidamente o que estava escrito. O envelope era endereçado a John Stephens, não era ele, obviamente, mas abriu mesmo assim. Não entendeu o significado da mensagem, nem fazia questão. Era um homem ignorante e bruto. Amassou o papel e o atirou no fogo, dentro da portinhola de metal. Foi até o quarto, abriu a porta e foi cortar a carne para colocar na panela. Um grito fez coro com a chaleira. Silêncio.
Anônima.
Estava ansiosa pela festa. Seria em um lugar muito diferente dos que ela estava acostumada. Não que não fosse a jantares chiques, mas aquele era especial. Já estivera lá antes, mas nunca como convidada de honra. Seu coração palpitava tanto que parecia querer sair do peito. Chegou. Pensou em pedir ao taxista para dar meia volta e lhe largar em casa novamente. Mas...Já estava pronta, arrumada e ali. Todos a esperavam, embora ninguém nunca tivesse a visto antes. Desceu. Dois seguranças guardavam a entrada do local. Ela entrou e subiu até o andar indicado. Não conseguia parar de se perguntar o que estaria fazendo ali. Pensara em desistir de ir diversas vezes, mas seu corpo não lhe obedecia e continuava a se arrumar e a se dirigir para o local. Na porta, a decoração já avisava o tipo de festa que era. As pessoas se posicionavam no salão. O burburinho das conversas se mesclava com o frenesi dos garçons. A música que tocava era clássica. Logo recebeu uma taça de champagne. Onde estariam as pessoas que ela conhecia? Até então só encontrara rostos desconhecidos. Ninguém a reconhecera até agora, entrara como uma perfeita estranha, afinal, era assim que se sentia. Uma perfeita estranha em meio a desconhecidos. Todos conheciam seu trabalho, mas nunca a viram. Ainda estava em tempo de voltar sem ser notada. Começou a caminhar em direção a saída, mas foi interpelada por sua amiga. Onde a Senhorita pensa que vai? Tarde demais.
Desabafo.
Preciso desabafar. Escrever tem me feito tão bem, mas ao mesmo tempo muito mal. É impressionante como alguém que se julgava tão sem talento algum, tão ignorante literariamente, tão, tão, tão...pudesse conseguir redigir algo. E o pior. Algo que as pessoas gostam. Ou, pelo menos, fingem muito bem. Eu continuo apostando na segunda opção, sempre fui de me subestimar e quando já estava tudo pronto eu não acreditava que tinha sido mesmo eu. Não que eu queira me vangloriar de algo, muito pelo contrário, sou muito crítica comigo mesma e por essa razão não acredito que eu possa ter escrito algo, ou, se escrevi, as pessoas gostem. Talvez esteja sendo muito dura comigo mesma. A verdade é que eu tenho me tornado escrava desses contos, ainda não sei se de uma maneira positiva ou não, mas prefiro deixar esses dilemas quase metafísicos para os meus personagens. É gratificante, tenho recebido vários elogios, claro, sempre dos meus amigos, o que lhes tiram um pouco do crédito, e várias sugestões de histórias e personagens. E o mais curioso, é surpreendente como quase tudo pode se tornar uma história. Eu sempre imaginei como os autores conseguiam pensar em algo...daquele tipo. O pior de tudo é que eu sempre penso em escrever nas horas mais inoportunas, agora são 8h38min, eu fui dormir perto das 2h, e acordei hoje às 6 e meia e tive que escrever os dois contos abaixo porque eles não queriam me deixar dormir, assim como as outras três histórias que têm me azucrinado nos últimos dias. O que mais têm me surpreendido disso tudo é que as histórias têm saído com uma naturalidade que me apavora, por exemplo, agora, eu não consigo parar de escrever. Bom, feito o desabafo, vou voltar a dormir.
As mulheres de Fernando, parte 5 - A ruiva I
Fernando olhou no relógio do celular, ainda eram dez horas da noite. Avistou uma ruiva, de longe, que caminhava em direção a ele, juntamente com mais duas amigas, talvez estivessem procurando algum bar. Era uma ruiva de pele bem branca, lhe lembrava as mulheres austríacas. Será que possuía alguma descendência? Aquela mulher se aproximava, seus olhares se cruzaram. Talvez pudesse responder sua própria pergunta aquela noite.
-Fernando? - Falou num tom de surpresa.
Por Deus! Ela sabia seu nome! Será que se conheciam? Ou será que estava escrito em algum lugar? Olhou para o seu peito para ver se havia esquecido algum crachá que o pudesse identificar. Nada. Ela lhe conhecia mesmo. Fernando saíra com diversas mulheres, muitas das quais não se lembrava sequer o nome. Na hora que olhou aquela ruiva não lhe ocorreu que a conhecesse. Agora, buscava desesperadamente numa espécie de agenda mental. Em vão, o jeito seria continuar fingindo que se lembrava perfeitamente dela.
-Oi! Tudo bem? - Respondeu ele, como se tivesse recordado quem ela era.
-Tudo ótimo! E contigo? Se lembra de mim?
Maldita mania das mulheres de encherem os homens, ou quem quer que seja, de perguntas. Na verdade pensava aquilo mais porque ela tocara num ponto crucial.
-Também. Claro que lembro! Procurando uma mesa? - Ele não poderia perder a oportunidade de terminar a noite acompanhado, ainda mais se tratando de uma mulher que não é comum, uma ruiva e, talvez, austríaca.
-Sim! Podemos? - Apontando para a mesa.
-Claro! - Retrucou.
-Fernando? - Falou num tom de surpresa.
Por Deus! Ela sabia seu nome! Será que se conheciam? Ou será que estava escrito em algum lugar? Olhou para o seu peito para ver se havia esquecido algum crachá que o pudesse identificar. Nada. Ela lhe conhecia mesmo. Fernando saíra com diversas mulheres, muitas das quais não se lembrava sequer o nome. Na hora que olhou aquela ruiva não lhe ocorreu que a conhecesse. Agora, buscava desesperadamente numa espécie de agenda mental. Em vão, o jeito seria continuar fingindo que se lembrava perfeitamente dela.
-Oi! Tudo bem? - Respondeu ele, como se tivesse recordado quem ela era.
-Tudo ótimo! E contigo? Se lembra de mim?
Maldita mania das mulheres de encherem os homens, ou quem quer que seja, de perguntas. Na verdade pensava aquilo mais porque ela tocara num ponto crucial.
-Também. Claro que lembro! Procurando uma mesa? - Ele não poderia perder a oportunidade de terminar a noite acompanhado, ainda mais se tratando de uma mulher que não é comum, uma ruiva e, talvez, austríaca.
-Sim! Podemos? - Apontando para a mesa.
-Claro! - Retrucou.
Olfato.
Ela estava voltando para casa, transitava pelas ruas do centro como se fosse a primeira vez que seguia por aquelas ruas. Sentia pingos fracos de chuva, olhava os rostos das pessoas, rostos trabalhadores, que às vezes se misturava com um ou outro mendigo. Ela sentia-se mal cada vez que passava por uma pessoa suplicante, não gostava daquela condição das pessoas, ainda porque, principalmente, sabia que cada um tinha uma história, apesar de não saber todas. Tinha curiosidade de um dia parar e conversar com as pessoas na rua, curiosidade, não coragem. Passou por uma pessoa que fumava, aquele cheiro lhe remetia às festas que costumava frequentar, uma saudade lhe arrebatou. Seguia seu caminho, andando pelas ruas do Centro, passando por seus amados prédios antigos, os postes que já iluminavam a algumas horas, pessoas que caminhavam apressadas para retornarem a suas casas, lojas fechavam. Um aroma de churrasco entrava pelas narinas, parecia sexta-feira. Talvez tivesse aquela impressão porque sairia aquela noite, ou porque lembrava-se das festas, mas o certo é que gostava daquela sensação. Continuou seu percurso para casa como a maioria daquelas pessoas, se perdia em meio a elas. Uma porta se abriu e com ela uma baforada de incenso, sentiu-se envolvida por aquela atmosfera e transportada para seus oito anos, quando na casa de seu tio, na entrada do ano-novo, ele defumava a casa com o mesmo tipo de incenso. Tratou de cortar logo aquele pensamento, assim como todos os anteriores, prestava atenção apenas no trajeto. Prosseguiu a caminhada, a chuva começava a ficar forte.
terça-feira, 14 de julho de 2009
As mulheres de Fernando, parte 4 - Luana.
Luana...Ah Luana...Uma boca que parecia ter sido desenhada com o maior cuidado, com maior destreza. Um sorriso tão misterioso como o de mona lisa. Mas ele não se rendeu às suas tentações por sua bela boca. Não...ela possuía outros atributos que despertavam sua atração. Ela possuia um corpo que era de dar inveja a qualquer coelhinha da playboy. No auge dos seus vinte anos, aquela loira, linda, de cintura estreita, pernas bem torneadas, seios não tão fartos como os de Sílvia, mas que não deixavam a desejar. Ou melhor, faziam desejar. Possuia um rosto de mulher que tem atitude. E...Ah! Como tinha atitude...Olhos de gata, que oscilavam entre o verde e o amarelo, quase mel. Quando a viu somente de cinta-liga e espartilho, naquele quarto de hotel, soube que aquele era seu dia de sorte. Ambos foram a um mesmo congresso e, coincidentemente, ficaram no mesmo hotel. Ele fora chamá-la para irem conhecer a noite do Rio e deparou-se com aquela cena. Ah! Como os homens são fracos...Se tornara uma presa fácil para Luana...Naquela noite ele descobriu que quando uma mulher quer algo, ela sempre consegue. Fernando quase teve o impulso de ligar para Luana naquele momento, acabara uma garrafa de cerveja, já estava no bar há quase duas horas, e a noite ainda não havia terminado.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
As mulheres de Fernando, parte 3 - Sílvia.
Mas ele teve outras namoradas. Lembrou de Sílvia. Ah! Silvinha...Uma bela morena, com seios fartos, pele morena clara, um corpo fenomenal, poderia ser até confundida com uma passista de escola de samba. Claro, não havia toda a atmosfera de gliters e fantasias. Conhecera Sílva em uma de suas viagens de férias. Nessas viagens era quando ele mais gostava de desfrutar de todos os prazeres que a vida poderia lhe proporcionar. Todos. Nem sempre ele terminava as férias com algum caso mais sério, mas aquele verão algo diferente aconteceu. Ficava com ciúmes de cada homem que se aproximava daquela morena. E eram muitos. Ela mal lhe dava atenção, e ele, que estava acostumado a receber sempre a atenção das mulheres, tentava despertar o interesse daquela mulher. Ele gostava de desafios. Após uma conversa no bar do hotel, umas margueritas, ele descobriu que ela não era apenas um corpo bonito, era uma mulher culta também. Gostava de poesia, era jornalista, dedicada no trabalho, adorava fotografia, História, artes, cinema e toda forma de cultura. Não era à toa que haviam muitos homens a cercando, sempre. Mas Fernando, quando queria, sabia como agir para conquistar qualquer mulher. E conquistou. Entretanto, não saiu dessa batalha sem nenhum arranhão, se apaixonara por Silvia. Ficaram juntos até que o relacionamento se estabilizou, passou a euforia inicial, e Fernando voltava para seu estado natural. Ela pensava em casar. Ele tinha fobia de relacionamentos mais sérios, para ele os efêmeros casos que ele tinha já lhe bastavam. Ele ainda não estava preparado para ela. Somado a todos esses fatores estava, também, o fato de que ele não resistia a uma mulher bonita. Acabou traindo-a com sua amiga.
Vinho tinto
Era uma noite de primavera, o clima estava agradável, o restaurante era uma varanda com pequenas árvores frutíferas que começavam a florear. Já estivera lá antes. Sim, mas a ocasião era bem mais festiva que aquela. Ela sorvia o vinho como se ao cabo daquela taça o mundo fosse acabar. Pelo menos, era assim que se sentia. Talvez seu mundo ruísse antes mesmo do término do jantar. Queria embriagar-se e esquecer tudo o que lhe afligia. Era cedo ainda, mas, ainda assim, olhou o relógio. Nove e meia. Quanto tempo mais será que faltaria? Ele não conseguia olhá-la nos olhos. Ela sabia o motivo. Poderiam, ao menos, serem amigos? Aquela pergunta soou como uma súplica, afinal, de fato, o era. O último suspiro de desespero, uma última tentativa. Não se humilhe, pensava. Era tarde demais, já estava se humilhando. Desistiu. Passou o resto do jantar calada.
domingo, 12 de julho de 2009
Chá preto e sentimentos
Olhava pela janela. O sol se punha no horizonte, fazendo um belo jogo de cores com as árvores que estavam lá fora. Tomava seu chá preto inglês. Adorava chá no inverno. Adorava sol no inverno. A paisagem lhe dava a sensação de que havia, realmente, algo maior. Aquele momento contrastava com seu íntimo. Estava enfastiada da vida de solteira. Pensava nisso. Não que procurasse desesperadamente alguém, mas já não se sentia onipotente como outrora. Sentia um misto de carência, e algo que ficava entre esperança e desesperança. Não sabia ao certo o que buscava, ou como buscava. Odiava aquela sensação e sabia que outra pessoa poderia conturbar ainda mais aquele momento. Mas o quê faria? Queria libertar-se daqueles sentimentos e não sentir mais nada. Antes, era tão simples, ela apenas preocupava-se com a sua carreira e deixava o amor, paixão e ilusões para os outros. Aquilo não pertencia a ela. Todos sabiam disso. Como fora deixar-se abater? Perguntava como se o sol, ou o seu chá pudessem dar-lhe a resposta que almejava. Sabia que era algo que só ela mesma poderia resolver. Fechou a janela.
sábado, 11 de julho de 2009
As mulheres de Fernando, parte 2 - Rita.
Hoje, Fernando era o tipo de homem que pode ser considerado "cachorro", mas nem sempre foi assim. Lembrou-se de Rita. Sua namorada da faculdade. A primeira. Nessa época, ele ainda era um rapaz que não buscava apenas se divertir com as mulheres. Quase casou-se com Rita. A lembrança dela ainda o abalava. Talvez fosse a única que ele tivesse realmente amado. Ela era inteligente e o subestimava. Ele gostava daquilo. Gostava de ser desafiado. Nunca nenhuma mulher o desafiara tanto como ela. Rita nunca, ou melhor, quase nunca concordava com o que ele dizia. E o pior, ela era eloqüente na sua argumentação. Quando ele não queria ser convencido de algo, precisava ser firme e buscar os mais variados recursos para tentar provar seu ponto de vista, quase sempre, em vão. Rita, apesar de seu físico frágil, quase de menina, era uma mulher forte, tinha personalidade. Ah! Rita... Era uma morena pequenina com os lábios carnudos e bem desenhados, olhos castanhos e alertas, sempre observadores, adoravam os detalhes, ela não tinha o corpo de dar inveja a nenhuma modelo, mas não era feia. Ele gostava dela do jeito que era. Ela era muito crítica, e ele aprendera muito com ela. Terminara com Rita por medo de compromisso. Se sentiu a pessoa mais estúpida do mundo ao se lembrar disso. Ele não pôde negar, poderia enganar aos outros, mas seria inútil tentar enganar-se, ainda amava Rita.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Domingo
Nunca esqueci aquela cena. Luciana. Talvez porque me arrependa até hoje. Ela podia ser a mulher da minha vida. Sentada à beira da cama, me olhava com os olhos injetados de tanto chorar. Eu sabia que ela passara a noite chorando. Ela não tentava mais evitar que eu a olhasse assim. Eu precisava dizer todas aquelas coisas e disse. Disse e não tive coragem de sair dali. Fiquei olhando, talvez, na esperança de ajudá-la. Acabara, mas não a queria mal. Abracei-a. Ela estava ali, lânguida, com esperanças, não sei ao certo. Sei apenas que eu não pensava em mais nada, o mundo se resumia naquela situação. Estava em meus braços, como uma criança perdida. Talvez seja pretensão demais minha em achar isso. Era um domingo. Um domingo pela manhã. Agora a vi do outro lado da rua, em um café. Parece estar feliz com aquele rapaz. Será que é tão apaixonada por ele, como foi por mim? Por Deus! Ciúmes? Pois é...Não é todo o dia que se encontra alguém como Luciana...Não é todo dia que se comete uma estupidez como a daquele domingo...Agora, ela parece feliz, será que devo ir até lá? Não, não, melhor não... A conta, por favor!
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Restaurante Vegetariano
Ela não sabia para onde estava indo, apenas seguia o caminho que suas pernas a levavam. Para onde iria? Não sabia. Foi se aproximando da Osvaldo Aranha até lhe surgir alguma idéia. Pegaria um ônibus. Não, não deveria chegar tão cedo no trabalho. Estava passando do corredor de ônibus, chegava próximo ao parque da redenção. As árvores lhe davam uma sensação boa, fazia sol naquela manhã de inverno. Estava feliz. Não sabia ao certo o motivo de toda felicidade repentina, talvez fosse a sensação de liberdade. Liberdade? Poderia ser. Acabara um relacionamento de quase dois anos e não estava triste ou arrependida. Estaria ela errada? Achava que não. Felicidade talvez fosse antônimo de erro. Procuraria o restaurante vegetariano que lhe indicaram. Almoçaria sozinha. Não estava triste ou chateada por almoçar sozinha. Até gostava da idéia. Teria um tempo para pensar na sua vida, refletir. Não fazia a menor idéia de como era o local e não lembrava o nome, apenas tinha como ponto de referência a igreja. Em que altura da rua seria? Já teria passado? Duvidava. Continuou andando. Era próximo do meio-dia, não estava com fome, mas não queria ir para casa. Não se importava de caminhar pela rua, sem rumou ou paradeiro. Até gostava da idéia, colocaria suas idéias em ordem. Avistou a placa do restaurante. Era ali. Entrou.
terça-feira, 7 de julho de 2009
Nostalgia
Ela desenrolava o papel laminado roxo com o cuidado de um cirurgião. O cheiro doce do chocolate invadiu-lhe as narinas. Deu a primeira mordida. Estava sentada, olhando pra fora da janela do escritório. Olhava que o tempo feio, nublado, começava a abrir. Surigia um sol tímido, que avivava o verde do gramado. Pensava nos acontecimentos dos últimos tempos. Será que se renderia a alguma outra paixão? Será que, se houvesse, seria tão fulgaz, intensa e efêmera como a outra? Achava que seus sentimentos começavam a ser como o sol que surgia em meio às nuvens. Fazia muito tempo que não sentia nada por alguém. Naqueles últimos dias parecia que algo estava diferente. Não estava confusa, nem sabia ao certo o que se sucedia, também não tinha pressa de saber isso. Agora tinha todo o tempo do mundo. Se não desse certo, ela não estava desesperada para acabar, ou começar algo. Ela tinha o melhor dos dois mundos. Tinha um relacionamento estável com seu amigo, faziam os típicos programas de casais, cinema, almoços, jantares, caminhadas, contar sobre a sua vida, seu dia, etc. Ao passo que poderia aproveitar sua vida de solteira como bem entendesse. Saía com quem, quando e onde queria, sem precisar dar satisfações ou preocupar-se com eventuais traições. Lembrou-se de quando era menor, quando a felicidade se resumia a uma caixa de bombons. Como era bom! O mundo era bem menos complicado, sua vida parecia mais simples. Casa, escola, televisão, família e tarefas de casa. O ar nostálgico foi cortado com o barulho da porta de quem estava chegando.
As mulheres de Fernando, parte 1 - Cláudia.
Fernando era um cara interessante. Era o tipo simpático e bonito. Sempre fez sucesso com as mulheres. Mas, talvez, esse fosse seu maior karma. Agora, ele estava ali, sentado na mesa de um bar, não estava triste, mas em busca de sua próxima presa. Olhava ao redor, com a esperaça de encontrar alguém interessante, ou apenas alguma mulher para passar a noite e o tempo. Enquanto isso, resolveu ponderar sua vida amorosa por alguns instantes. Fazia uma semana que Cláudia havia terminado com ele. Não que ele estivesse carente, mas precisava organizar as idéias antes de tomar alguma atitude aquela noite. Era uma sexta-feira, dia em que a noite é um leque de opções. Ele nunca se deixara abalar com o término de seus relacionamentos anteriores, pode ser, também, porque ele era um pouco narcisita. Pensava em Cláudia. Não em como ele sentia, ou sentiria, falta dela, porque talvez não sentisse. Conhecera Cláudia em um avião. Estavam indo para Paris. Que lugar melhor do que Paris para aflorar o amor? Ele pensara isso no avião. Claro, não pensara em aflorar o amor dele, mas que seria um ótimo lugar para começar um caso, era. Pensou isso, principalmente, após colocar os olhos em Cláudia. Que mulher! Cláudia era uma loira, alta, magra, o tipo de modelo de lingerie. Traços bem delineados, rosto com um certo ar angelical, belos olhos verdes. Não refletiam profundidade aqueles olhos, talvez porque ela era o tipo de mulher que servia apenas como modelo de lingerie. Ele não se importara com isso, afinal, ele não era profundo também. Não com uma modelo de lingerie. Pode ser que ele pensasse assim porque ela terminara com ele pois estava apaixonada por um alemão que conhecera em um de seus trabalhos pela Europa. Maldizia, nesse instante, todos os alemães. Bando de nazistas! Bebeu um gole de cerveja.
domingo, 5 de julho de 2009
Horizonte
Ele estava ali, com os pés enterrados na areia branca da praia. Olhava o horizonte com seu sol poente. Anos que não ia à praia. Sempre ficara trancafiado em seu escritório. Saíra de lá direto para a praia. Ainda estava com sua calça social, gravata e a camisa social, agora já enrolada até a altura dos cotovelos. Segurava os sapatos e as meias em uma das mãos. Não que não gostasse do mar, areia, a maresia, a tranquilidade que o oceano lhe passava...Mas esteve sempre muito ocupado para se dedicar aos pequenos prazeres da vida. Sempre achara que teria outro momento para ver o sol se pondo no horizonte. O momento havia chegado. Não era bem o que ele esperava, mas estava ali. Estava desempregado. Já contava com quase cinquenta anos. Não sabia o que fazer. Trabalhara toda sua vida para a empresa. Canalhas! Que falta de consideração! Dera seu sangue, suor e juventude para eles! O que diria para sua família? O que faria agora? Uma vontade de sair gritando pela rua lhe assolou. Queria chorar. Dizem que homens não choram, será que era mesmo verdade? Seus olhos marejaram. Ninguém ali lhe conhecia. Aquele horário, somente vendedores e estudantes iam à praia. Ninguém notaria ele chorando. Não queria falar sobre o assunto no momento. Seria mais uma pessoa anônima na beira da praia. Era um anônimo. Sentia que havia perdido tudo. Pelo menos por aquele instante, o mundo se resumia em sua frustração. Se arrependera de ter se dedicado tanto ao crescimento da empresa em detrimento de sua vida pessoal. As lágrimas começaram a escorrer pela face.
sábado, 4 de julho de 2009
Mariluce
Olhos insanos, selvagens. Assim que ele definia os olhos de Mariluce. Olhos que nem Machado de Assis poderia classificar. Eles possuíam um nefasto magnetismo. E aqueles dois olhos cor de amêndoas lhe fitavam nesse momento. Por Deus! Poderia tomá-la nos braços nesse exato instante. Acreditava que por ela estar ali, na porta de seu apartamento, sem motivo aparente, lhe convidando para um cinema poderia ser um sinal. Mas e o Marcelo? Não podia! Prezava demais a amizade com Marcelo! E, afinal, ele não era um traíra. Mas ela era uma mulher que não era de se jogar fora, ainda mais quando olhava com aquele olhar...Ah, aquele olhar...Ela sabia que poderia chamar qualquer homem apenas com o olhar. E era o que fazia nesse exato momento. Tentava disfarçar, distrair-se com algo, mas tudo nela parecia quase pecaminoso. Ele se agarrava no "quase". Porque sua vontade era render-se às tentações, Marcelo jamais saberia. Jamais? Começava a considerar a hipótese de...Não...ele era um amigo decente, nunca havia pensado na mulher do outro daquela forma. Claro, ela nunca havia olhado daquele jeito para ele. Até o presente momento. Ele procurava a chave, completamente desconcertado, sentindo calafrios a cada passada de olhos em Mariluce. Ela se aproximava. Ela balbuciou algo, que ele, tão absorto em seu dilema, mal pôde escutar. Ah! Aqueles lábios...lábios carnudos que deixariam até mesmo Angelina Jolie com inveja. Hoje, especialmente, estavam com um batom vermelho. Ela raramente usava um batom forte. Aquilo era algo. Era uma provocação. Ele, então, colocou o braço ao redor da cintura de Mariluce e lhe deu um beijo de ânsia e desejo.
Músicas castelhanas, crônica 1
Não há quem faça música triste como os castelhanos. Eu sempre achei que pagode não era música pra dor de cotovelo. Ainda que as letras sejam tentadoras para cortar os pulsos, a melodia alegre afasta o ar melancólico necessário a este estado de espírito. Agora, os castelhanos...Eles são mestres na arte da dor de cotovelo. Tudo bem que é um povo alegre, e quando fazem músicas alegres, são as mais dançantes, mas no quesito músicas tristes não há quem os supere. Acho que é da própria língua espanhola, algo meio arrastado, voz de quem já tomou todas por causa do pé na bunda, coisas assim. Eu escutei uma sequência de três ou quatro músicas em espanhol que falavam sobre o assunto e tive vontade de me atirar do viaduto da borges, sinceramente. Portanto, se você levar um fora fenomenal, de dar dor na região glútea, contente-se com uma cerveja e o popular pagode. Músicas castelhanhas são realmente prejudiciais nessas horas.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Ressaca
Acordara. Sentia-se mal. Estava com ânsia de vômito ainda. O quarto parecia girar. Por Deus! Precisava parar com aquilo! Ainda sentia o gosto de cigarro na boca. Sabia que aquela vida desregrada lhe mataria. Deveria parar com aquilo. Levantou-se. Conseguiu chegar até a pia. Ligou a torneira. Com as mãos em forma de concha levou um pouco de água até a boca. Que sede! Deixou água correr um pouco mais, até esquentar e jogou no rosto. Talvez melhorasse. Os olhos pintados já estavam borrados. A maquiagem forte da noite e a cara de ressaca já lhe deixavam desfigurada. Parecia um zumbi. Fedia a cigarro. Ligou o chuveiro. Saíra pra esquecer, bebera pra esquecer, mas ele ainda estava ali, na sua mente. Deixou a água escorrer sobre a sua cabeça, enquanto ainda repassava a noite passada. Bebera mais do que devia, como sempre. Por quê? Por quê? Ninguém deve sumir sem dar satisfações. Pelo menos algumas informações que pudessem lhe deixar satisfeita. Aquela porta aberta ainda a incomodava. Deveria ser definitivo, ela queria que fosse definitivo. Tinha receio de qual definitivo seria, mas queria arriscar, colocaria tudo a perder, mas tentaria. Caso contrário, se culparia por não ter tentado. O máximo que poderia lhe acontecer seriam algumas sessões (a mais) no psicólogo. Decidiu. Tomaria alguma atitude, e não apenas mais uns drinks na noite. Enrolou-se na toalha e caminhou até o telefone.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Sapatos
Em meio aos vários pares de sapatos, estava ela. Deveria arrumar tudo. A mudança seria em menos de uma semana e havia todas as roupas para arrumarem. Ela se deteve em um sapato em especial. Um marrom novo, de salto alto. Nunca usara. Esperava uma oportunidade especial, que nunca havia chegado, para poder usá-lo. O comprara para ir à festa de casamento de sua irmã, mas mudara de idéia. Deveria usá-lo em outra ocasião. O marido não gostava do sapato. A deixava mais alta que ele. Ela sempre fizera todas as vontades dele. Talvez saísse com o sapato assim que estivesse no apartamento novo. Queria voltar a sair novamente. Como estariam as suas amigas de antigamente? Voltaria a ter contato com elas! Não haviam se falado mais depois que todos os casamentos começaram a ruir. O único que ainda sobrevivera por mais uns anos fora o dela. Mas...por que? Todos terminaram igual. Se lembrava do pensamento que sua mãe tinha sobre divórcios. Que as mulheres divorciadas queriam roubar o marido das que ainda tinham. O pensamento dos homens era que elas colocariam idéias perigosas na cabeça de suas esposas. Riu. A verdade é que nem todos os casamentos têm finais felizes. Quase todos. Mas alguns conseguem manter as aparências por mais tempo. Guardou na caixa de papelão o sapato.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Larissa
Ele estava sentado em sua cadeira, com uma xícara de café na sua frente e olhava agora a tela escura do computador. Merda. Estava quase enlouquecendo. Ela não saía de sua cabeça. Ah! Larissa... Ela havia começado na empresa há pouco tempo, fora falar com ela na primeira semana, tinha se interessado pela moça. Ela era do tipo tímida, mal saía da sua sala, mas era simpática quando falava com ele. Era simpática com todos, mas preferia pensar que era só com ele. Possuíam alguns amigos em comum, o que os levava a uma trivial conversa de corredor. Quando passava por sua sala, era quase inevitável olhar para dentro, principalmente quando ela sentava próximo à porta. Ela não se arrumava como as outras, não parecia que fazia esforço para se arrumar, mas, ainda assim, havia uma beleza que ele não sabia explicar que emanava dela. Os cabelos negros lhe davam um ar de cigana. Talvez fossem as belas pernas torneadas e morenas de sol sob a saia de bolinhas esvoaçante que o deixavam quase louco. Como deveria ser bom mordiscar aquelas pernas. Sonhava com aquelas pernas e com o que mais poderia haver sob a saia que lhe dava um ar quase inocente. Ou ainda, com os belos olhos verdes que mais pareciam que iriam consumi-lo por inteiro. Sentia calafrios só de pensar em seus olhos. Ah! Que olhos...O sorriso dela, com os dentes perfeitos e brancos lhe prendiam a atenção. Ela sorria de um jeito que só as mulhers bonitas e desejadas, e que sabem disso, conseguem. Era um riso solto e sexy. Ele a desejava. La-ris-sa. Aquelas sílabas pareciam que saltitavam de sua boca. Ficava pensando em como poderia se aproximar dela sem parecer um completo pervertido. Ligou o computador.
domingo, 28 de junho de 2009
Diamantes
Olhava seu anel de diamantes. O ganhara de noivado. Refletia sobre sua vida conjugal. Era mesmo feliz? Casara por mero comodismo, bem como todas as escolhas em sua vida. Não que não gostasse de seu marido, mas não se imaginava viver com outro homem. Talvez porque não houvesse outro homem. Jamais atrevera-se a se relacionar com outros. Ele foi o primeiro e, provavelmente, o último. Sentia que em toda sua vida postergou certas coisas, agora sentia aquela frustração. Era medrosa demais para jogar toda sua vida pacata fora para fazer o que realmente queria. Seus filhos já estavam grandes, já haviam saído de casa. Só restara os dois. Não era infeliz, embora soubesse que não havia aproveitado a vida. Agora, aquele senhor se aproximara dela. Por que? Por que ela? Justo ela! Nunca havia pensado em trair seu marido. Jamais. Mas, quando estava com ele...até cogitava a idéia de se separar...Estava absorta em seus pensamentos, mexendo o chá sem parar, como se no fundo da xícara estivesse a solução para tudo. Em vão.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Flores
Ele a olhava ali, deitada na cama. Entre os lençóis, ainda dormia. Ambos sabiam que era apenas um caso, efêmero, fulgaz, intenso. Ele pensava na razão de terem escolhido aquele tipo de relacionamento, eram duas pessoas adultas, com sentimentos diversos. Ela gostava dele. Ele gostava de outra. Não queria que ela continuasse sentindo aquilo por ele, talvez não merecesse, talvez ela não merecesse. Era apenas sexo casual, que mal poderia haver? Sexo não se confunde com amor, e ele já havia deixado claro para ela. Tentava se convencer, mas sabia que os argumentos eram baratos demais para convencerem. Se perguntava o porquê de ainda estar ali, alimentando aquela relação sem futuro. A carne era fraca, e sabia disso. Estariam eles procurando suas almas gêmeas? Mas esse não seria o destino de almas gêmeas, terminarem apenas se rendendo às tentações carnais, pura conexão de pele, cheiros, gostos e êxtase. E era só. Acabava por ali. Se levantavam e cada um seguia o seu caminho. Passavam semanas sem conversarem. Quando se reencontravam, parecia que todo aquele tempo não havia passado de, no máximo, horas. Não falavam sobre o que acontecia fora daquelas quatro paredes, somente o papo leviano de "Como vai?", "Quanto tempo!", "Saudades" e realimentavam aquele caso. O relacionamento deles já havia nascido morto, ambos sabiam. Mas nunca é demais chorar ao pé do leito de um moribundo, ou, ainda, levar flores ao cemitério. Por enquanto levaria flores ao cemitério. Deu um beijo nas costas desnudas de Nicole.
Pôr-do-sol
Ela estava apreciando a vista. Nunca tinha visto um pôr-do-sol como aquele. Se sentia perdida naquela selva de pedra, para onde olhava havia um prédio. Sempre fora acostumada com a vida de interior, agora, aquela cidade toda aguardando por ela. As duas colegas estavam sentadas no terraço do shopping. Poderiam? Era parte do estacionamento, mas, ainda assim, parecia proibido. Nunca fizera nada proibido, ilegal ou imoral. Sempre fora uma garota exemplar. Estava agora naquela cidade tão impessoal...Deixara sua família no interior para estudar na capital. Tudo parecia tão difícil...Quando poderia voltar correndo para os braços de sua mãe? Não podia. O esforço da família era muito grande para mantê-la ali, era a única esperança da família. A vida da estância ficava difícil, diferente de outrora, quando eram os mais prósperos e ricos da região. Os tempos eram outros. A época de fatura ocorreu antes de ela nascer. Perderam tudo o que tinham. Maus negócios, gastos supérfluos, caindo, assim, no descrédito e miséria. Era época das vacas magras. Literalmente. Nada daquela vida nova que era forçada a começar tinha a ver com ela. Era uma típica mulher do interior. Gostava daquilo. Aquele pôr-do-sol lhe lembrava de casa. Vamos embora, está escurecendo.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
New York, New York
Frank Sinatra cantava New York, New York. Ela tinha vontade de sair dançando em plena avenida. Segurava a sombrinha floreada, que mais parecia seu parceiro de dança imaginária em um salão oval, girando frenéticamente, ao compasso da música e guiada por seu par. Não, não fazia uma loucura dessas. Mas estava tão alegre que seria capaz de fazê-lo. Suspirava e sorria. Como a própria música dizia, queria acordar na cidade que nunca dormia. Como devia ser Nova York? Imaginava as luzes, as propagandas, as pessoas, os hotéis, parques...imaginava que estava em Nova york, queria fazer parte daquilo. Nem mesmo a chuva lhe impedia de ficar alegre. Ela queria que todos soubessem da sua felicidade. Aquilo merecia uma comemoração. Brindou a vida com um champagne imaginário. Os passos apressados dos que passavam pareciam indiferentes. Na correria do dia-a-dia, mal se podia notar aquela figura com o semblante que divergia dos rostos sérios que passavam. Seguiu o seu caminho pensando no cantor, em que ele estaria inspirado na hora de fazer a música? Será que ele tinha uma musa? Devia ter. A felicidade dela tinha nome e sobrenome. Era amada. Pela primeira vez era amada e correspondia. Se sentia muito clichê de ficar pelos cantos suspirando por um rapaz. Mas era inevitável. Talvez estivesse suspirando por Frank Sinatra e sua Nova York, amava aquela música e a sua cidade imaginária. A dança no salão também lhe fazia bem. Esquecia a chuva e tudo o que poderia dar errado. Agora, esquecia até mesmo que teria que ir trabalhar. Ah! New York...
Um real de amor
Ela estava ali, parada, embaixo do toldo da banca de cachorro-quente, segurando sua sombrinha vermelha. Contava as moedas dentro da carteira, 10, 20, 30 centavos...Por que eu fui gastar tudo? Logo hoje! Não estava com fome, mas queria se presentear com um mimo naquela noite nada amigável. Segurou a nota de um real. Teria coragem de se desfazer dela? Havia se lembrado da existência daquela nota há uns meses atrás, em uma das suas muitas noites de insônia. Quando se lembrara da existência da velha cédula, não pôde mais dormir, tinha que ler a agenda. Se lembrava de ter se sentido a mulher mais cafona do mundo por todas aquelas besteiras escritas na agenda, normal que as pessoas apaixonadas sejam um pouco assim, mas não era do feitio dela. Ah! Seu ex-namorado...Nem ela sabia explicar o que vira de especial nele. Na agenda continham suas primeiras impressões do ex-amor. Existiria "ex-amor"? Se fosse amor, talvez durasse, mas não era o caso. Se sentia aliviada de não estar mais com ele. Aliviada? Aquela sensação lhe dava um pouco de culpa. Alívio era muito forte para um ex-amor. Aquela nota era um presente do primeiro encontro. Ela se lembrava de ter lido na agenda e, na memória, era tudo tão nítido ainda. O troco do sorvete. Não sentia saudades. Jamais. Embora tenha sido seu primeiro namorado. Era um presente de brincadeira, ele não esperava que ela guardasse como, de fato, o fez. Ainda tinha valor monetário, ainda que extinta a produção da referida nota. Uma relíquia. Ela guardava, agora, não só porque era uma recordação, era rara. E, agora, estava ela ali, segurando a nota. Não tinha mais dinheiro, era o valor exato do lanche. Não havia nada mais barato. A chuva era torrencial, ela não sentia mais os pés gelados dentro dos tênis ensopados. Trabalhara o dia inteiro. Seguiria o resto do caminho a pé, na chuva. Ela merecia. Um mini cachorro-quente, por favor.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Bombons
Era seu aniversário. Ela queria sair. Estava sentada na penteadeira, o corpo, ainda quente do banho, recendia a flores. Pensava agora, era mais um ano que se passava. Os primeiros cabelos brancos já surgiam, tímidos. Estava ficando velha. O velho rádio tocava canções antigas, o cantor pedia para a amada nao ir embora. Deixou a escova cair no chão. Escolheu o vestido azul. Sabia que iria encontrar as mesmas pessoas. Suas tias lhe fazendo as mesmas perguntas, bem como as mesmas críticas. Ainda não arranjou um namorado? Como engordou! Assim vai ficar pra titia! Como se já nao bastasse o próprio sofrimento da situação, elas ainda faziam parecer pior. A dona Maria era a pior de todas. Ela mal parecia que possuia um espelho em casa. O marido era um verdadeiro guerreiro por aceitar casar com a megera. Ela não entendia o motivo de ele se sujeitar aquela condição. Sorte dele que já havia falecido há anos. Ela teria que aturá-la uma noite inteira. Era a parte mais torturante de fazer anos. Voltou para a penteadeira, juntou a escova. Respirou fundo. Era apenas uma noite. Será que deveria contar dele? Não. Era cedo demais. Ainda que tivesse vontade de se suicidar a cada comentário maldoso das velhas, ela sabia que aquele ano era diferente. As críticas não lhe afetariam. Ela sabia que não era assim a realidade. E se fosse? E se ele sumisse como os anteriores? Ela não contaria. Não tão cedo. Elas pareciam que possuiam veneno tal que todos se afastavam com o simples fato de saberem da existência do pretendente. Não contaria. Passaria pela humilhação por mais um ano. A solteirona. Se maquiava agora. Ele lhe dera bombons. Se lembrara disso. Abriu a gaveta e retirou uma lata metálica contendo bombons envolvidos em papel laminado vermelho. Pegou um, abriu, colocou na boca. Adorava bombons de cereja. Aquela atmosfera que o chocolate lhe proporcionava afastava por completo a imagem das tias. Não o convidara para a festa. Jantaria outro dia com ele. Sabia que esse ano era diferente. Tinha que ser. Guardou o resto da caixa. Colocou o casaco. Saiu.
Sushi
Ele olhava para ela. Não acreditava no que acontecia. Corriam no meio da rua para pegarem o ônibus. Correr era o que ele mais fazia nos últimos tempos. Ela aparecera do nada e transformara sua vida. Ela era tão...Espontânea, despreocupada, livre, racional e crítica. Ela fizera ele ir em lugares que ele jamais imaginaria. Do underground a high society. Provara narguilé. Foi a festas gls. Restaurantes mexicanos. Cartomantes. Torres de chopp. Matava aula. Ela fizera ele provar sushi. Aquele peixe cru era realmente bom e estranho. Ja pensara em provar antes, mas nunca tivera coragem. Ela prezava demais a comida. Uma vez lhe mencionara que gostaria de ser chef de cozinha, mas gostava de cozinhar por hobby, nao como uma obrigação. Odiava obrigações. Sempre fugia de responsabilidades. Talvez fosse por isso que ela fugia dele. Não queria que as pessoas gostassem dela. Não daquele jeito. Ela era como uma areia movediça, quanto mais tentava fugir, mais se sentia preso a ela. Chegaria um tempo em que ele não conseguiria mais respirar, assim como quem é atolado em areia movediça. A pressão exercida sobre o peito da vítima é tamanha que os músculos já não conseguem expandir a caixa torácica e ela morre por asfixia. Ela era assim. Tentara compará-la com uma cobra, mas a metáfora da areia movediça parecia combinar mais com aquela figura. Subiram no ônibus.
Marshmallows
O leite fervia no fogão. Procurou o pote de chocolate no balcão. Nunca sabia onde a empregada colocava. Ela ia uma vez por semana arrumar a casa de campo da família e, ainda assim, conseguia mudar tudo de lugar. A casa ficava no meio do nada. Cerca de duas horas da cidade mais próxima. Gostava do clima do campo. Não precisava se preocupar com nada, era tudo tão calmo. Encontrou! Serviu-se. Colocou marshmallows. Adorava aqueles pequenos pedacinhos do que parecia isopor açucarado. Lembrava sua infância. Ela mexia a xícara de chocolate quente. Os marshmallows flutuavam em meio ao marrom escuro do chocolate meio amargo. A alegria cabia em uma xícara. A chuva caía forte lá fora. Dentro de casa, somente ela, o cão e sua xícara de chocolate quente. O labrador ficava no canto do tapete, enquanto ela, na outra ponta, em frente à lareira, ouvia o barulho da chuva. Era um cão velho. Seu companheiro há anos. Não se lembrava de como era antes dele. Sempre estava ali, pronto para lhe agradar. O amava, e acreditava que era recíproco. Podia passar horas assim. Um incenso queimava. O cheiro doce invadia a sala por inteiro. Acreditava que dia de chuva sempre merecia um incenso. Especialmente dias de chuva com frio. A campainha toca. Oi! Nossa, você está todo molhado! Mas por que chegou a essa hora? Sabia o motivo pelo qual ele chegara aquele horário, devia estar com ela. Seu casamento ja não era o mesmo. Desgastado pelo tempo, ele tinha seus casos extraconjugais. Não sabia se o culpava ou não. Claro que o culpava. Enquanto ela cuidava dos filhos e da casa, ele estava se divertindo com diversas mulheres diferentes. Ou uma em especial. Isso era o que lhe machucava mais. Ela sempre esteve ali, pronta para lhe agradar, sempre o amou, mas, ainda assim, ele ia procurar conforto nos braços de outra. Não queria saber a resposta. Nem ele queria responder. Os dois sabiam onde ele estivera. Silêncio.
domingo, 21 de junho de 2009
Rua das Camélias.
Ela acordou. A dor de cabeça lhe pertubava de tal maneira que demorou a perceber onde estava. Não se lembrava de como fora parar ali...Uma festa, drinks, um rapaz e...Só sabia que ele estava ao seu lado em meio aos lençóis de seda vermelha. Não o culpava. Não se culpava. Precisava sair, beber, esquecer...esquecer de si nos braços de um desconhecido. Era melhor. Não teria compromisso algum com aquele rapaz. Agora estavam ali, os corpos nus, e não se lembrava sequer o nome dele. Mal se lembrava o seu próprio. Tentava organizar as idéias, ainda era confuso demais...Onde fora parar a Clarissa? Por Deus! Iria embora com ela! Onde será que ela se meteu? Tudo ainda girava. Fez um esforço quase sobre-humano para conseguir sair da cama. O chão parecia que iria se abrir e ela cair no meio do vão. Procurava sua bolsa. Parou para fazer as contas de quanto dinheiro se lembrava de ter gastado. Em vão. Saíra e nem se lembrava de quanto ou o quê havia bebido. Aquela figura ao seu lado ainda nem se mexera. Dormia feito pedra. Foi bom pra você? Achava aquela frase a mais clichê de todas. Não falou nada. Se vestiu. Como chegara ali? Não sabia. Não se lembrava o quê havia acontecido, nem como. E se o estranho...? Não podia. Um medo lhe assolou.Veio o remorso. Passaria em uma farmácia para comprar uma pílula do dia seguinte. Estava com medo. Em que parte da cidade estava? Deus! Onde? Pegou um táxi. Por favor, na Rua das Camélias. Deixara o estranho para trás. Não queria se envolver novamente. Bebera para esquecer. O conhecera para esquecer. Não se permitiria outro envolvimento. Não tão cedo. Queria que a figura do outro se afastasse para sempre de sua vida antes de começar alguma outra coisa. Respeito? Sim, por ela mesma. Não queria mais dores de cabeça além da que sentia no momento. Sua cabeça latejava. Não deveria beber tanto. Não deveria sair com estranhos. Pode parar ali na esquina, na farmácia. E agora? Qual o nome da maldita pílula? Vão me achar muito promíscua. E agora? Era. Não ligava. Pelo menos, não depois de raciocinar dessa forma. Pediu. Entrou no táxi. Na próxima quadra. Aqui. Desceu. E as chaves? Droga, sempre perdia! Só faltava terem ficado no motel. Não, achara. Entrou, subiu o primeiro lance de escadas. Deveria ter comprado um remédio para a dor de cabeça! Nunca mais beberia, se prometera aquilo. Sabia que não cumpriria. Já havia se prometido diversas vezes a mesma coisa. Entrou no apartamento. Pararia de pensar em tantas coisas. Só queria dormir novamente.
A CARTOMANTE VII
Ela ouvia música e se sentia outra mulher. Novamente. Mas agora já tinha certeza que seria definitivo. Toda aquela conversa de minutos antes servira para lhe afirmar isso. Já estava com raiva dele, embora tivesse sua dúvida dirimida momentos antes. Ela já sabia. Sempre era assim. Seu amigo cantava uma canção que era reproduzida pelo computador agora. Aquela música lhe fazia bem. Pensou em pular nos braços do seu amigo. Afastou a idéia. Não podia torturar uma alma. Já o fizera tanto, com tantos...Era a vez dela. A segunda. Se sentiu feliz e triste. Triste por acabar algo que nem chegou a começar, mas feliz por saber que seria novamente a mesma pessoa de sempre. Sentia falta de seu cachorro. Precisava dele mais do que nunca. Aquele vazio era sempre preenchido com carinhos desajeitados de seu amigo canino, mas este se fora também. Sabia que podia contar com seus amigos. Mas era algo maior. Ela preferia cães. Somente eles a entendiam e não ligavam para qualquer burrada que fizesse. Decidiu dormir. Talvez quando acordasse tivesse a solução. Pensou na cartomante. Charlatanice! Se sentiu estupidamente influenciável. Resolveu ir em outra. Desistiu. Em segundos já dormia. Parecia que nada havia acontecido. Era a mesma do mês anterior. Alivio.
Júlia
Ela conhecia Júlia há anos. Estavam bebendo em pleno meio-dia. Ela deveria ir trabalhar depois. Não se importava com isso. Júlia era assim. Ela gostava do jeito da amiga. Júlia era uma pessoa como ela queria ser. Irreverente. Diferente. Fora da média. Sem limites. Livre. Será que ela mesma era livre? Sempre se fazia essa pergunta. Acreditava que não era. Quando estava com Júlia, fazia coisas que nunca imaginara fazer. Morria de medo, mas fazia. Se lembrava do dia em que experimentara maconha com Júlia. Não sentira nada. Todos estavam sentados no sofá. Ela não sentira nada. Era isso? É isso que é proibido? Por que? Nada. Uma dose de absinto. Nada. Um copo de rum com refrigerante de limão. Caipirinhas. Nada diferente de apenas o efeito do álcool. Dormira aquele dia no sofá. Ela se lembrava daquela cena como sendo uma das maiores loucuras que fizera. E, de fato, era. Tudo já girava. Lembrava-se quando Júlia ainda era uma garota tímida. Hoje, era bem diferente. Ainda via em Júlia a menina que conhecera no colégio, mas apenas resquícios dela. Cresceram, era natural. Eram mais amigas agora do que quando se conheceram. Ela era certinha demais. Agora, era o oposto. Já haviam tomado todos os drinks possíveis. Ela se sentia um pouco tonta. Hora de almoçar. Saiu do apartamento ainda cambaleante, esperava que ninguém notasse. Até atravessar os cinco quarteirões já se recuperaria. Saiu com uma garrafa de água pela rua. Precisava chegar. Correu o mais rápido que pôde, ou, pelo menos, o quanto seus pés deixaram. Já não sentia tão forte o efeito das bebidas. Só Júlia mesmo para fazer uma loucura dessas. Riu.
Absinto.
O absinto descia queimando pela garganta, mas ainda assim a vontade de se entorpecer era tamanha que ela não se importava. Queria outra dose. Sabia que se continuasse ali não conseguiria sair. Já cambaleava. Desistiu da segunda dose de absinto. Tomara quase todos os drinks da casa e ainda não se sentia com coragem de voltar para o apartamento. O apartamento que ficava no suburbio da cidade refletia sua vida. Escuro, sujo e mal cuidado. Ela ficou ali, sentada. Observava as pessoas que sentavam, se encontravam e bebiam ali. Não era o mesmo tipo de pessoa que ela. Talvez pudesse ter sido bem sucedida. Era solitária. Talvez pudesse ter se casado. Não sabia ao certo. Um casal de namorados comemoravam algo. Deveria ser aniversário de namoro. Sempre era. Daqui a uns anos ele teria casos extraconjugais enquanto ela cuidava das crianças em casa. Talvez a sensação daquela futura esposa fosse ainda pior que a dela naquele momento. Somente seu gato lhe esperava em casa. Quando pensou no destino daquele casal apaixonado se sentiu um pouco mais alegre. Deveria ser o absinto. Sempre era. Achava que devia ir para casa. Algo a prendia ali, e não era o álcool ou a conta. Sim, havia alguém olhando para ela. Uma marguerita, por favor. Ele não se movera da cadeira. Ela talvez fosse sentar na mesa dele. Talvez. Sua vida era feita de talvezes. Se cansou do jogo de sedução, já não era tão nova quanto a garota do aniversário de namoro. Se levantou e saiu. Voltava para casa. Seus pés afofavam a neve e afundavam, formando um caminho atrás de si. O relógio marcava duas horas da manhã. Parou na ponte. O vento era tão fresco. Seus pés se aproximavam do parapeito. Não sabia ao certo o que estava fazendo, apenas fazia. O álcool lhe tirava os sentidos, tudo girava. Só se ouviu o barulho de água do Lago.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
A CARTOMANTE VI
Ela caminhava sem rumo. Tinha a tarde toda pela frente e nenhum compromisso. Apenas um encontro marcado consigo mesma. A câmera na bolsa e seus fones de ouvido era tudo o que precisava. Passou no shopping para comprar cigarrilhas. Acendeu uma enquanto caminhava em direção ao seu amado viaduto. Queria tirar fotos da paisagem urbana que tanto lhe fascinava. Talvez pulasse de lá de cima. Tinha curiosidade de saber como era. Seria poético pular dali. Ela sabia a história daquele viaduto, amava aquela vista e se sentia sozinha. Novamente aquela sensação de vazio. Mas ela caminhava, seus passos eram quase autômatos, era apenas guiada por um trilho invisível. Acendeu outra cigarrilha. Tirou fotos da sua amada vista. Não seria hoje que pularia. Se pulasse. Duvidava que um dia tivesse coragem. Ainda era nova, se sentia com a vontade do mundo. Queria conhecer muitas coisas ainda. Ainda. Agora deveria voltar, passou em um mercadinho no centro da cidade, entre lanchonetes sujas, pés apressados, pessoas mendigando, carros buzinando, lá estava ela, comprando duas cerveja e uma carteira de cigarros no centro da cidade. As pessoas lhe olhavam, como alguém poderia estar caminhando e bebendo em plena sexta-feira, no centro da cidade sem parecer um ébrio habitual? Ela não era. Mas queria se entorpecer, esquecer tudo que lhe fazia mal. Acendeu um cigarro. Voltava. Queria que tudo aquilo acabasse antes que enlouquecesse. Talvez já fosse tarde.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Noite, chuva e lágrimas.
Ele passava na rua. Encontrou. Era uma moça. Jovem. Bonita. Morena. Adorava as morenas. Elas gritavam menos. Começou a segui-la. Ela logo notou a sua presença, olhava assustada para aquele estranho que não parava de acompanhar seus passos pela rua escura. Logo ali, onde não havia ninguém por perto para socorrê-la se gritasse. Ninguém escutaria. Ele sabia disso. A única coisa que se ouvia era o barulho da chuva e os passos apressados em meio às poças de água. Gostava de fazer com que as suas vítimas se sentissem como ratos. Era assim que ele se sentia durante o dia. Mas, durante a noite...Ah! Durante a noite...Ele era o predador. Era o gato em meio aos ratos. A noite sempre revela o que o dia esconde. O lado perverso das pessoas aflora. Pelo menos era o que acontecia com ele. Sempre era o bom vizinho, quieto e prestativo. Durante a noite libertava sua verdadeira essência. Por favor, não! Tarde demais. As lágrimas já se misturavam com a chuva.
Gérberas.
Ela percorria os corredores do hospital. Passara antes em uma floricultura. Queria comprar flores, mas àquela altura já não sabia se ele as veria, comprou da mesma forma. Escolheu gérberas, porque eram suas favoritas, eram alegres, para contrastarem com o clima pesado de morte do quarto em que ele se encontrava. Ainda não aceitava o que acontecera. João? João! Acorda, João! Não brinca comigo, cara! Aquela cena ainda repassava em sua mente como um filme insano e arranhado. Tudo aconteceu tão depressa, ele, ali, caído no chão. A ambulância chegando e o hospital. Como assim câncer? Não pode! Parecia um pesadelo, uma brincadeira de mau gosto. Não era. Ela sabia que não era, mas ainda não aceitava. A família dele já sabia, era incurável e ele tinha poucos dias. Ela atingiu o quarto 206, era ali. Entrou. Ele estava ali, naquela cama, sorriu para ela e lhe perguntou se o perdoava. Era óbvio que ela perdoava, mas por que não contara? Não queria que ela se preocupasse. Impossível não se preocupar, ela gostava demais dele para vê-lo morrer ali, daquela forma, sem nem poder lutar. Era seu amigo desde sempre. Ela não sabia o que seria dela sem ele por perto, era como se um fosse extensão do outro. Irmãos de almas. E agora só restaria ela.
A CARTOMANTE V
Ela já havia superado toda a turbulência. Mas, quando a esmola é demais, o santo sempre desconfia. E com razão. Ela entrou no messenger, como sempre fazia, já estava acostumada a encontrar on line as mesmas pessoas de sempre, mas...havia alguém com quem ela não contava que estivesse ali. Sim, era ele. O causador de toda sua intranquilidade estava ali, pronto para ser chamado a uma conversa. E ela foi, já estava segura de si. Já não sentia a presença dele, ainda que virtualmente, da mesma forma como antes do sumiço. Conversaram banalidades, ela já estava mesmo disposta a esquecê-lo por completo, no dia anterior já havia contado para os seus amigos como se sentia, novamente com as rédeas da situação. Seu inferno astral voltou, quando ele, repentinamente, lhe fez uma declaração que a deixou totalmente desnorteada. Ele disse que ela era a pessoa mais doce e meiga que havia conhecido nos últimos tempos e que seu sumiço era devido ao medo de se envolver. Ela não entendia. E como poderia entender? Ela também tinha medo de se envolver, mas já era tarde demais, estava mergulhada por completo naquela situação e quase se afogando. Aquela frase lhe tirou do prumo. Sentia sua cabeça rodando, suas pernas bambas, em que pese estivesse sentada, o coração disparando, mas ainda precisava expôr a sua visão da situação. Ela realmente achava que ele estava procurando apenas uma companhia para passar o tempo, que não queria nenhum tipo de comprometimento e sumiu por achar que ela estivesse gostando dele. Ela não o culpava, ela mesma era assim, tentou reconhecer no outro a sua visão dos relacionamentos anteriores. Ela sumia, não dava satisfações, mas, pela primeira vez, estava do outro lado. Fazia pouco mais de um mês que seu inferno astral começara, terminara e ressucitara. Assim como seu amor, paixão e loucura. Agora, era o tempo do recomeço, do ressurgimento daquela insanidade que lhe assolara semanas antes, do misto de emoções, medos e alegrias. Duas lágrimas brotaram-lhe nos olhos. A loucura renascia e, pelo visto, era só o começo.
terça-feira, 16 de junho de 2009
A noite na qual se perdeu.
Quando entrou no local, estava com medo, receio, tantas pessoas estranhas a rodeavam que ela não sabia nem para que lado olhar. Rapazes com os braços tatuados, alguns não eram apenas os braços, moças com cabelos brancos, vários com brincos em locais inimágináveis. Ela se sentiu um pouco deslocada. Não era como as festas que estava acostumada a freqüentar. Todos pareciam se conhecer e eram tão simpáticos. Pediu uma vodka com refri. Logo a batida louca e repetitiva da música começou a lhe parecer convidativa. A seqüência de luzes coloridas lhe atordoavam e, ao mesmo tempo, lhe estimulavam a ficar ali, na pista, dançando. Via meninas se beijando, rapazes se beijando, achou muito exótico toda aquela cena. Mas o ambiente insano e frenético a cativou. Achou que aquele lugar era o melhor, diferente e o mais vibrante que já estivera. Havia se apaixonado por aquela atmosfera surreal e libertinosa que pairava no ar. Não queria ir embora. A noite pulsava na batida do seu coração. Parecia que aquele local possuía vida própria. Restavam poucas pessoas ainda na pista, então se viu obrigada a sair. Quando a porta negra se abriu, não acreditou no que viu. Era dia claro, entrecerrou os olhos para poder aguentar o choque de claridade. Os raios solares pareciam tão cruéis aos seus olhos que quase a cegaram. A noite havia passado tão depressa que mal podia acreditar.
A CARTOMANTE IV
Ela caminhava pela rua, com o sol sobre a sua cabeça, e sem pensar em mais nada. Era dona de sua vida novamente. Se sentia extremamente feliz por ter essa certeza. O dia parecia tão alegre, uma tarde ensolarada, mais quente que o habitual para aqueles dias de frio intenso, parecia que o dia estava celebrando com ela. Era senhora da sua vida. Andava no ritmo da música e parecia que tudo se encaixava numa perfeita sincronia. Ela não tinha mais os ímpetos de alegrias e felicidades da semana anterior. O caso do final de semana serviu para colocar um fim no amor abrupto que lhe assolou três semanas antes. Retomou seus antigos hábitos, começava a se reconhecer dentro daquela estranha que se tornara. Já estava quase curada daquela febre que desconhecia até então. Sempre soube o que queria, como queria e o que faria para conseguir - o que durante aquele período de três semanas não existiu, ela mal sabia o que e quem ela era, o que significava, e muito menos aquele estranho. Nem depois de tudo que ocorreu essa última pergunta ela poderia responder. Mas agora ele se fora. E ela esperava que fosse definitivo. Não fazia questão de responder a interrogação. Só sabia que ele não era o que dizia ser. Jamais conseguiria excluí-lo por completo, mas, ao menos, tinha certeza que não o procuraria. Duvidava que ele retornasse. E se isso ocorresse...ela nem gostava de pensar sobre o assunto, ainda era recente demais o sumiço repentino do estranho. Assim como viera se fora. Ela sabia que se ele a procurasse novamente não seria a mesma sensação. E ela agradecia a Deus por isso. Já se sentia com os pés no chão e mais lucida do que nunca.
A CARTOMANTE III
Ela se via naquele lugar, rodeada de pessoas desconhecidas e estranhas que repentinamente se tornaram seus amigos. O álcool parecia que tinha começado a fazer efeito, ela não controlava mais seus impulsos. Parecia que estava gostando dele. Não era a mesma impressão que tivera na semana anterior. O som alto abafava-lhe as ideias, e ela cantava acompanhando a banda. Não conseguia parar de olhar para aquele rapaz, ele parecia tão simpático...Ela não podia, nem queria, impedir os fatos que se seguiram. Era uma situação quase surreal. Estava naquele lugar, com aquele quase estranho, aquela altura da manhã, inebriada. Não era a primeira vez que fazia isso. Não o amava, nem viria a amá-lo, ela sabia e se sentia segura por isso. Nunca fora de se apaixonar. Gostava de aproveitar tudo que a vida pudesse lhe proporcionar e o fazia com maestria. Sempre soube que o amor não fora feito para ela. Agora, ela tinha certeza.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
A CARTOMANTE II
Ela corria. O vento gelado do começo de inverno beijava-lhe as faces, enquanto que somente sua sombra em meio à penumbra lhe seguia. Sozinha naquela rua, ela se sentia sozinha na vida. Seus pés afobados martelavam o chão, ao passo que sua mente repassava todos os acontecimentos da semana anterior. Ela não queria entender. Talvez, nem pudesse compreender a sucessão de fatos, nada fazia sentido. Em minutos, as lágrimas começaram a brotar-lhe nas faces. Uma confusão de sentimentos a tomava por completo, ela tentava negar, tentava prosseguir, mas era em vão. Ele não saia de sua cabeça. Agora mais do que nunca, ela precisava descobrir.
As coisas que a cartomante lhe disse ainda martelavam em sua mente. Ela estava atordoada, precisava ter certeza se aquilo era real ou apenas uma charlatanice e ela estava delirando. Ela queria acreditar que era tudo mentira, que aquela senhora não sabia de absolutamente nada. Afinal, cartas são apenas cartas. Elas não sabem de nada. Ou, ao menos, não deveriam saber. Há coisas que é melhor não ficar sabendo, mas a curiosidade humana não respeita essa fronteira...
Seus pensamentos só foram cortados pelo latido estridente do cachorro assustado com o barulho da sua corrida, ela precisava chegar em casa, precisava ter certeza que ainda tinha chão.
As coisas que a cartomante lhe disse ainda martelavam em sua mente. Ela estava atordoada, precisava ter certeza se aquilo era real ou apenas uma charlatanice e ela estava delirando. Ela queria acreditar que era tudo mentira, que aquela senhora não sabia de absolutamente nada. Afinal, cartas são apenas cartas. Elas não sabem de nada. Ou, ao menos, não deveriam saber. Há coisas que é melhor não ficar sabendo, mas a curiosidade humana não respeita essa fronteira...
Seus pensamentos só foram cortados pelo latido estridente do cachorro assustado com o barulho da sua corrida, ela precisava chegar em casa, precisava ter certeza que ainda tinha chão.
A CARTOMANTE
Ela sempre teve curiosidade de ir em uma cartomante, embora possuísse certo receio e até certo medo, a idéia parecia bem convidativa quando seu amigo lhe propôs, inusitadamente, ir à uma cartomante. Todos os medos de saber seu futuro exposto para uma completa estranha colocado em uma mesa. E se ela estivesse certa? Um pouco de pavor tomou o seu pensamento, mas a curiosidade era maior. Ambos combinaram que ligariam durante o intervalo da aula e iriam logo após o término. Ela não pôde resistir, saiu no começo da aula, bateu na porta da sala de seu amigo e eles saíram correndo atrás da cartomante.
Combinaram que almoçariam primeiro e depois procurariam a senhora que haviam telefonado mais cedo. Entre um pedaço de hamburger e uma batata frita, eis que a senhora telefona que a taróloga não conseguiria chegar em tempo para a consulta. Frustração. Todavia, ela se lembrou que ali perto havia uma loja esotérica, talvez ali soubessem de alguém. Se dirigiram para o referido local e lá estava uma senhora a quem lhes disseram que colocava cartas. A senhora os levou a uma sala ao lado da loja. A mulher lhe dava calafrios, vestida de preto, meio loira, cabelos desengrenhados, uma senhora de seus 45 anos, anel pontiagudo no anular, um olhar insano em sua face, tez branca, uma figura que era imponente e ao mesmo tempo que gerava um certo descrédito, parecia que havia saído de um manicômio qualquer. Ela estava ansiosa demais para desistir ali, queria saber o que aquela figura exótica tinha para lhe contar.
Combinaram que almoçariam primeiro e depois procurariam a senhora que haviam telefonado mais cedo. Entre um pedaço de hamburger e uma batata frita, eis que a senhora telefona que a taróloga não conseguiria chegar em tempo para a consulta. Frustração. Todavia, ela se lembrou que ali perto havia uma loja esotérica, talvez ali soubessem de alguém. Se dirigiram para o referido local e lá estava uma senhora a quem lhes disseram que colocava cartas. A senhora os levou a uma sala ao lado da loja. A mulher lhe dava calafrios, vestida de preto, meio loira, cabelos desengrenhados, uma senhora de seus 45 anos, anel pontiagudo no anular, um olhar insano em sua face, tez branca, uma figura que era imponente e ao mesmo tempo que gerava um certo descrédito, parecia que havia saído de um manicômio qualquer. Ela estava ansiosa demais para desistir ali, queria saber o que aquela figura exótica tinha para lhe contar.
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